Blog Riacho Mágico
   
 
   



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158.

 

        Achei a rede pesada demais quando iniciamos, em ritmo de mutirão, a puxada para a beira do mar. Vieram muitos peixes e também um esqueleto que ficou inteiro porque o morto estava vestido com uma roupa de mergulho de qualidade fantástica.

        As meninas se assustaram, houve susto, gritaria e até choro quando o corpo chegou à praia enrolado na rede.

        Julia, Kimie e eu fizemos o reconhecimento do falecido. Era homem, de acordo com o crachá de identificação. Estrangeiro, trabalhava em conserto de navios, segundo o eu pude perceber nas poucas letras que restavam em seu uniforme, indicando a logomarca da empresa para qual ele trabalhara um dia.

        Considerei que a tempestade poderia ter trazido o defunto até a beira do mar e enterramos os seus ossos com dignidade, porque a roupa, confisquei para mim. Passado o susto, voltamos ao trabalho.

         Em seguida ao enterro, começamos o desembarque dos alimentos e equipamentos. Esta parte foi bem mais difícil. Não só porque os botes suportassem no máximo seiscentos quilos cada, como não eram adequados para transportarem algumas máquinas que achei interessante levar para a praia. Por este motivo tivemos que deixar muitas coisas úteis no navio. Entre elas duas motocicletas em perfeito estado de conservação, que não dependiam da eletrônica para funcionar, uma mini padaria completa, muitos equipamentos hospitalares e uma grande quantidade de móveis em muito bom estado.

        Levamos dois dias para tirar tudo que podíamos do navio. As meninas trabalharam muito, desdobrando-se em arrumar o acampamento, carregar e descarregar os botes, transportar as coisas até as casas e ainda ajudarem na pesca. Era o nosso alimento diário por ser abundante e rico em proteínas. Desdobrei-me em criar variedades para não enjoar as meninas. Salgávamos a sobra para levar na viajem de retorno.

        Todo o dia me comunicava com meus filhos e o pessoal na Cidadela para informar o andamento do resgate. Naquela noite recebi uma chamada inesperada.



Escrito por Luiz Lago às 21h38
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157.

 

        Após o jantar que estava delicioso, nos reunimos em nosso quarto na pousada, e combinamos com Antenor a nossa viagem do dia seguinte. Particularmente pedimos que ele não falasse para onde estava indo e quais os motivos da sua viagem. Ele afirmou que estava pronto com tudo preparado, as pessoas avisadas e que disse para os seus amigos que ia visitar o único filho, sem data para voltar. Contou ainda que dois dias antes de chegarmos fizeram uma bela festa de despedida para ele. Foi quando se desfez de quase tudo o que tinha construído naquele lugar. A casinha onde morava era emprestada. As plantas que amava de paixão, a sua verdadeira vocação, como confirmamos mais tarde, ele doou para a pousada e para sua amiga cozinheira. Os móveis foram leiloados e o dinheiro revertido para a ONG que lhe ajudou a modificar o lugar e mudar a mente dos nativos. O resto era apenas uma malinha com algumas roupas, sua Bíblia e algumas ferramentas de jardinagem.

        - Tenho certeza que para onde vou, precisarei destas ferramentas, afirmou profeticamente.

        Pois foi isto exatamente que aconteceu. Quando voltamos para a Cidadela, Antenor se enturmou com o pessoal que estava pesquisando a agricultura em condições adversas, sem a luz do sol. Existiam ainda muitas dúvidas a respeito do poder nutritivo dos alimentos cultivados nestas condições. Este era um ponto fundamental para a nossa sobrevivência. Nós tínhamos espaço, mais de trinta mil metros quadrados de área própria para o cultivo na gruta, esperávamos ter água, os nossos experimentos estavam dando certo, mas não tínhamos experiência com a produção em quantidade. A nossa preocupação maior era produzir a uma quantidade máxima de alimentos diversificados na fazenda, para industrializá-los em forma desidratada, com a maior validade possível de armazenamento e, só depois, que estivéssemos confinados na gruta iniciar o cultivo com luz artificial.

        Antenor resolveu todos os “nós” deste processo!



Escrito por Luiz Lago às 20h32
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156.

       

        A conversa estava por demais interessante, mas senti fome. Eram mais de oito horas. Sugeri uma pausa na conversa para comermos alguma coisa, Antenor era nosso convidado. De novo ele abriu um sorriso e afirmou:

- Também pensei nisto. Daqui a meia hora, deixa ver, ao oito e dez, vinte minutos, vão vir nos avisar que o jantar está pronto. A cozinheira da pousada é especial, a pessoa mais linda que conheci, por dentro e por fora. Foi ela quem me apresentou a Jesus.

E sem que pudéssemos objetar, ele continuou a falar, contando os detalhes da sua conversão e como recusou ser candidato a vereador e como o Prefeito tentou persegui-lo e, mesmo depois de nos chamarem para o jantar, pontualmente às oito e meia, continuou, e continuou a contar a sua história. Entendi que sua vida até chegar aquele povoado, isolado do mundo em que sempre viveu, não lhe dava orgulho e que foram aqueles poucos anos ali que ele conseguira realizar todos os seus sonhos e cumprir a sua missão de vida. Fiquei imaginando que tantas pessoas tentam viver suas vidas guiadas pelo seu Ego, por aquilo que pensam que é certo, ou mesmo, pelo que as pessoas em sua volta dizem que ele deve fazer. Muito raro as pessoas procuram os seus dons e vocações para seguirem os seus caminhos. Menos ainda, entregam a Deus verdadeiramente a suas vidas, para que Ele os conduza ao final que lhes está reservado desde a eternidade.

Antenor, depois de conhecermos a sua história naquele lugar, é um exemplo de desperdício de dons. Uma pessoa abençoada por Deus com múltiplas habilidades passou dois terços da sua vida de forma medíocre, buscando uma coisa que ele não sabia o que era, e que estava dentro dele mesmo. Pensei no fato de, se este homem tivesse exercitado os seus dons desde que começou a sua vida consciente, onde teria chegado. Quanta coisa teria realizado. Quanto bem teria feito à humanidade. Decidi fazer alguma coisa a respeito disto.



Escrito por Luiz Lago às 21h34
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155.

 

        Passei três dias fotografando. Tirei todas as fotos que a memória da máquina digital permitiu. Na minha primeira segunda feira depois do pagamento, peguei meu salário e algumas poucas economias e fui para a cidade aqui perto, que tem um comércio forte. Quando voltei, trouxe comigo todo o material necessário para colocar meu plano de ação em prática.

        Fotografei todas as valas negras do município; todos os buracos; os depósitos de lixo a céu aberto; os bueiros entupidos; os desmatamentos; a sujeira nos manguezais, peixes morrendo nos bolsões de água; enfim, todas as causas que resultaram em exclusão do nosso município do calendário do turismo do Estado. As causas de declínio e abandono do nosso paraíso. Isto foi o resultado de uma política de turismo inapropriada e indecente que em vez de alimentar com divisas o povoado, degradou-o e poluiu o meio ambiente a ponto de inviabilizá-lo de forma definitiva.

        Fiz diversas cópias das minhas fotos e espalhei por todo o município, denunciando o descaso das autoridades e conclamando a todos se unirem em prol de uma nova era para a comunidade.

        Na praça fiz diversos pronunciamentos, cada vez mais numerosos. O Prefeito soube do meu movimento e pediu ao delegado que me prendesse. No dia em que ele veio me prender mais de mil pessoas me cercaram e impediram a ação da polícia. Era uma verdadeira revolução. A rádio do município vizinho fez uma entrevista comigo e a televisão regional se interessou pela minha história e me apresentaram como um defensor da natureza. Por fim o Prefeito me chamou para uma conversa. Foi até divertido. Ele não conhecia nem um quinto do município. Ele me propôs uma trégua e me ofereceu um cargo na prefeitura, o que repudiei. Assustado, prometeu que ia pensar nas minhas propostas, mas não fez nada.

        Continuei protestando como podia e aos poucos fui conseguindo resolver os problemas, um por um, mês a mês, palmo por palmo. Até que me convidaram para me candidatar a vereador!



Escrito por Luiz Lago às 18h22
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154.

 

Deixei que Kimie sentisse os meus pensamentos na sua mente e pedi que deixássemos para mais tarde aquela discussão. Ela concordou e resolvi ir até o navio para, junto com Julia, traçarmos o plano para a evacuação. A grande embarcação estava mais longe da praia depois do temporal. Anteriormente, podia alcançá-la com algumas braçadas apenas. Agora, além de enfrentar a arrebentação, teria que nadar por mais uns cinco minutos para chegar até ela. E aquele mar já havia se mostrado bravio. Sem considerar a questão dos tubarões, arraias e outros peixes que podem atacar o ser humano. Se acontecesse outra tempestade daquelas, o navio iria recuar ainda mais e seria sugado para o fundo do mar.

Quando cheguei ao navio Julia e Kimie me esperavam no convés. Transmiti a minha preocupação a elas e ambas concordaram comigo. Resolvemos começar a evacuação do navio imediatamente. Reunimos as comandantes de pelotões e expusemos o nosso plano.

Faríamos o desembarque das meninas em duas etapas. Na primeira, nos seis botes conduzidos pelas comandantes de pelotão e por mim, desembarcaríamos cento e uma meninas. O restante ficaria arrumando as provisões e os equipamentos, colchonetes, utensílios diversos, que dariam o suporte de sobrevivência e  alojamento que montamos nas casas da praia. Faríamos quantas viagens fosse necessárias para levar tudo que pudesse ser utilizado para a sobrevivência do nosso grupo.

Por sorte o mar estava calmo e antes das dez horas da manhã as pequenas estavam em terra firme. Foi divertido vê-las correrem na areia e brincarem com a água na beira da praia. Fazia muito tempo que aquela praia não via tanta gente.

Enquanto preparávamos a próxima etapa, fizemos uma pausa para um arrastão, que foi um grande acontecimento, não fosse por termos puxado um esqueleto humano junto com os peixes.



Escrito por Luiz Lago às 21h09
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153.

 

        Amanheceu um dia maravilhoso. Acordei com uma mensagem em minha mente, era Kimie:

        - [O senhor está aí comandante?]

        - [Sim anjinho, tudo bem com você?]

        - [Estou ótima acordei há pouco, não sinto mais dores e o ferimento está cicatrizando muito bem e rápido. Peço que me perdoe por ontem. Estava muito cansada, acho que no meio da nossa conversa adormeci.]

        - [Eu senti que você adormeceu, tudo bem, já era tarde mesmo e eu estava cansado também. Até que parte da nossa conversa você lembra?]

        - [Acho que você falava sobre os momentos involuntários de comunhão. Parece que disse que aconteceram também na cidadela, foi isto.]

        - [Sim foi isto mesmo. Creio que sei o significado destes momentos.]

        Contei a ela então, a minha visão e as minhas conclusões a respeito. Ele concordou comigo, mas insistiu na pergunta que dera início a todas aquelas conjecturas.

        - [Teria sido o Julgamento Final? Se foi, porque não fomos julgados também. E se não foi, quando será. Antes que você responda, quero dizer que isto é a única coisa que realmente me preocupa, que me deixa confusa. Li e reli os manuscritos e a “Palavra”. Concluí que o Julgamento Final é um fato importante e definitivo para a nossa transformação e comunhão definitiva. Tantas coisas previstas já aconteceram e fico imaginado qual o nosso papel nisto tudo. Você me entende? Fomos reinados e reunidos para uma missão como todos os seres humanos. Qual é exatamente a nossa comandante?]

        As suas dúvidas eram as minhas dúvidas. Os seus temores eram os meus. O que devíamos fazer? Como honrar as maravilhas que Deus fez através do nosso intermédio? Não me atrevia a aprofundar as minhas idéia através da comunhão. A palavra final seria do Todo Poderoso. Estávamos vivos, era o que mais interessava naquele momento e tínhamos que tomar decisões sobre outras vidas o que era uma missão tremendamente difícil.



Escrito por Luiz Lago às 00h23
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152.

 

“Os homens que não mantiverem a comunhão por ocasião do julgamento final que está próximo, irão para o nada. Não mais serão, e isto é a pior coisa que pode acontecer ao homem”.

        Sim, era isto, a humanidade que não fizera a sua opção por Jesus, não praticou a comunhão, a oração e a fé, estava naquele momento, ou melhor, naqueles momentos, se transformando em nada! Quando éramos compelidos a entrar em comunhão, por impulso extra-vontade, estávamos na verdade, absorvendo aquela energia que se dissipava no universo. Era energia divinal regenerada, reintegrando-se ao Todo Poderoso, sem identidade, sem memória, sem ser, apenas energia. Era isto que o manuscrito queria dizer com “não mais serão”. O que é pior ao homem do que “não mais ser?” Que coisa mais temida pelo ser humano do que perder sua memória. Sim, porque quando um homem morre, ele não leva nada de material para a eternidade. O que ficaria aqui seria a sua trajetória nesta vida-morte, nesta não vida que fazemos tanta questão de preservar e lutar com todas as nossas forças para que nunca acabe.

        Ocorreu-me então, a pergunta de minha menina:- “O julgamento final já aconteceu? Jesus já veio para julgar vivos e mortos”Nele”?

        E nós, quem seríamos? O remanescente da grande tribulação? Ou quem sabe seriamos apenas sonhos de nós mesmos a vagar na imaginação do inconsciente coletivo?

        Nunca, desde que Lea se foi depois de salvar meu filho, me permiti este tipo de elucubrações. Sempre coloquei o amor e a fé em primeiro lugar na minha vida. Crer foi o meu alimento para as conquistas que acumulei. Crer em Deus em primeiro lugar. E no amor como regra de vida.

        Exaurido nestes pensamentos, tentei me comunicar com Kimie, mas ela não respondeu. Devia ter adormecido. Estava cansada e ferida, a minha menina. Nada mais justo do que descansar o corpo e a mente. Tínhamos um dia decisivo e duro pela frente. Voltei para o meu saco de dormir e fiquei contando estrelas até que adormeci.



Escrito por Luiz Lago às 20h10
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151.

 

        Antenor nos ofereceu mais café. Pedi um copo de água que ele trouxe fresquinha de um filtro de barro. Ele desculpou-se por estar nos tomando todo aquele tempo, e lhe dissemos que a história estava muito interessante e que ansiávamos pelo final. Mas era quase seis horas da tarde e teríamos que encontrar um lugar para pernoitar, pois precisávamos viajar no outro dia pela manhã.

        Ele sorriu e disse que isto já estava providenciado. Reservara um quarto duplo na pousada em que trabalhara. Era próximo, na rua de trás que ficava à beira mar. Não o contestamos e muito menos perguntamos sobre a reserva. Já sabíamos que o Criador estava no comando daquele encontro. Ele nos conduziu para a varandinha de onde pudemos assistir o maravilhoso por do sol onde continuou o seu relato:

        - Comecei por visitar os comerciantes do lugar, o padre, os pastores das igrejas protestantes, os líderes antigos da comunidade, fui até na pequena comunidade hippie, sem que alguém, um sequer, quisesse se juntar a mim naquele projeto. Eles me recebiam bem, muito melhor do que as autoridades davam razão aos meus pontos de vista, mas participarem, nada. Ouvi desculpas de todos os tipos, algumas nitidamente mentirosas, mas nenhuma pessoa que procurei quis entrar comigo naquela luta. Fazia as visitas nas minhas horas de folga, e na segunda feira, meu dia semanal de descanso. Deixei de comer, gastei a pouca roupa que tinha e fiquei do mesmo jeito que comecei: Só! Uma noite, deitado no meu quartinho, olhando as estrelas através da minha janela, tive uma inspiração! No outro dia, pedi ao patrão emprestado a sua máquina fotográfica. Ele me perguntou para o que eu queria e disse-lhe que era uma surpresa. Ele falou que era para ter cuidado com a máquina e que me descontaria do salário caso eu a danificasse. Nem dei bola para o que ele falou, meu plano estava todo na minha cabeça.       

         



Escrito por Luiz Lago às 22h10
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150.

 

        Aquilo, para mim, era um absurdo! O homem aparecia na cidade, apenas uma vez por mês para assinar alguns papéis, e, segundo me falou em segredo o meu patrão, dono da pousada, receber as propinas dos poucos empreendedores da localidade. Fui até a Câmara Municipal tentar falar com os Vereadores e a segunda decepção. Cheguei a ser maltratado por eles. Primeiro me perguntaram se eu era natural do lugar. Quando lhes falei que não, que era natural de um Estado bem distante daquela região, questionaram os meus interesses em relação àquela matéria, pertinente aos nativos do lugar. Creio até, que pensaram que os meus motivos eram políticos e mais, depois fiquei sabendo, desconfiados de mim, pediram ao delegado do lugar que consultasse nos arquivos policiais se havia alguma coisa contra mim!

Além do mais, não passavam de uns ignorantes e analfabetos. Perdoem-me senhores o desabafo, mas não é preconceito não. Aquelas pessoas deveriam representar os cidadãos do município. Deveriam se interessar pelas causas populares, mas estavam lá, reunindo-se uma vez por semana, preocupados com seus salários e em arranjar empregos para os seus parentes. Estava nas mãos deles a oportunidade de mudar o rumo dos acontecimentos. Mas estavam pensando apenas em si e em seus umbigos. Refleti então que eu não estava muito longe de me parecer com eles. Em toda a minha vida, só pensei em mim. Na minha satisfação pessoal, no meu prazer, no meu querer. Deixei, pelas minhas aventuras que a minha mulher morresse de desgosto e que meu único filho se decepcionasse comigo. Tudo que Deus me concedeu, coloquei fora, na lata do lixo. E lá estava eu, num eterno recomeço tentando fazer alguma coisa em prol de pessoas que não conhecia, que não eram meus conterrâneos, e que sequer pensavam como achava que deveriam pensar. Foi quando tive a terceira decepção.



Escrito por Luiz Lago às 21h10
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149.

 

        Antenor tomou mais um gole de café e continuou o seu relato:

        - Como eu ia dizendo, logo que fui promovido a chefe de serviços gerais, um grupo de jovens de uma organização não governamental, se hospedaram na pousada. Esta ONG era ligada a defesa do meio ambiente. Eles eram tão entusiasmados com o seu trabalho que me contagiaram. Ficava ouvindo-os falarem sobre diversas situações que estavam ocorrendo no planeta inteiro, devido à ação agressiva do homem contra a natureza, segundo alguns ou pela própria ação do planeta no seu passeio pelo universo girando em torno do Sol. A princípio dei razão para aqueles que pensavam que o homem era o responsável por tudo, depois fiquei em dúvida. A civilização humana era muito “jovem” considerando a idade da Terra. Os registros científicos poderiam ser considerados irrisórios em relação ao tempo. Fiquei ali, entre as duas coisas e numa noite resolvi sair da minha insignificância e aparteei a conversa. Falei das minhas dúvidas, do meu interesse pela preservação da natureza, e falei das minhas considerações sobre aquele ex-paraíso onde nos encontrarmos. Os rapazes e moças gostaram da minha interferência. Um debate se formou e participei entusiasmado. No arroubo da juventude fizeram planos para salvar o vilarejo e convidaram-me para ser o representante deles no lugar. No calor do idealismo aceitei, preenchi e assinei diversos papéis, e recebi minha identidade de membro daquela ONG.

        Ele terminou de tomar o seu café e continuou a contar sua história, olhinhos brilhando de alegria. Aquele deve ter sido o momento mais importante da sua vida.

- No outro dia pela manhã eles se despediram de mim e partiram para continuarem a sua pesquisa e recrutamento. Eu fiquei com a incumbência de tomar as providências para colocar o nosso plano ambiental em prática. A primeira medida foi um encontro com o Prefeito Municipal. E a primeira decepção. O Prefeito não morava na cidade e sim na capital.



Escrito por Luiz Lago às 20h45
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148.

 

        - [O Julgamento Final já aconteceu, comandante?]

        A pergunta foi objetiva e direta, e me pegou de surpresa. Muitas coisas diferentes aconteceram durante a Tribulação. Diferentes no sentido de não ser possíveis avaliá-las sob o ponto de vista científico, em relação ás leis naturais. Em muitos momentos senti como se o tempo houvesse parado, e até voltado atrás. Alguns dias, naqueles tempos, todos na cidadela, sentiam a necessidade de entrar em comunhão ao mesmo tempo. Mais de mil e duzentas pessoas paravam de repente o que estavam fazendo e se ajoelhavam para comungar com o Criador. Ficávamos por um tempo em comunhão e sem que houvesse um comando, uma ordem, um louvor, todos voltavam aos seus afazeres. É como se estivéssemos sob outro comando que não o da nossa mente. Pensando naqueles momentos me ocorreu perguntar a Kimie se aquelas situações aconteciam com elas no navio.

Foi o que fiz. Relatei com detalhes os fatos, e ela, sem me surpreender, confirmou que no navio as coisas aconteciam exatamente como contei. Disse que, como a mim, aqueles momentos a intrigavam, mas que não conseguia questioná-los junto às outras meninas. Era como se fosse impedida de tocar no assunto. Entre nós, na Cidadela, acontecia o mesmo, aliás, surpreendentemente não sei como consegui falar com ela sobre isto.

        No instante que este pensamento veio à minha mente, tive uma visão.   O que vi, foi uma multidão de pessoas aglomeradas, ombro a ombro, cujos rostos transfigurados como bonecos de borracha, tinham apenas uma expressão de horror e dor, como no quadro “O Grito” de Edvard Munch. De seus corpos andróginos, desprendiam-se o que imaginei ser os seus espíritos, de cor cinza que se elevavam aos céus, onde se dissipavam, como se diluídos, terminados, findados de uma vez por todas. Foi quando lembrei da frase final do manuscrito citado por Kimie...

 



Escrito por Luiz Lago às 19h08
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147.

 

        Ficamos um pouco em silêncio curtindo o nosso momento de êxtase espiritual. Lágrimas em profusão molhavam os nossos rostos. Um aroma de areia molhada me lembrou o perfume de mato úmido pelo orvalho. E um sentimento triste interrompeu a nossa comunhão pessoal. Kimie ficou um pouco desapontada, mas compreendeu a minha tristeza. Foi com tristeza que ela falou:

        - [Porque o homem fez isto com o planeta?]

        - [O homem provocou o Criador mais uma vez.]

        - [Agora me veio à mente a Décima Quarta Mensagem do Quinto Manuscrito de Loucura e Verdade.]

        - [Você leu Loucura e Verdade?]

        - [Claro, Lea nos fez ler o livro mais de três vezes e decorar todas as mensagens. Ela disse que seria muito importante para o futuro do nosso planeta. Vê se me esqueci de alguma palavra.]

       

        -[Quinto Manuscrito – Décima Quarta MENSAGEM

 

INTRODUÇÃO

 

 

        “Vigiem que o julgamento se aproxima rápido como a luz. Busquem a comunhão comigo e livrem-se da extinção total”.

 

 

O JULGAMENTO FINAL

 

        “ O tempo do julgamento da ação do homem na Terra se aproxima rapidamente. Não posso permitir que haja desequilíbrio no universo. O bem que pertence à minha essência deve prevalecer e subjugar o mal que existe na Terra. Na Terra o equilíbrio é frágil, a despeito do esforço dos anjos para que o mal seja eliminado e o bem prevaleça. O julgamento final não tarda. O mal será eliminado da Terra, assim como os homens que não mantiverem comunhão comigo. Aqueles que mantiverem comunhão comigo terão os corpos transformados em corpos espirituais e suas almas transformadas em almas espirituais, e serão guiados pelo meu espírito que neles habita para viverem a liberdade da eternidade comigo. Os homens que não mantiverem a comunhão por ocasião do julgamento final que está próximo, irão para o nada. Não mais serão, e isto é a pior coisa que pode acontecer ao homem.”]

        Ela recitou todo o texto da Décima Quarta Mensagem do Quinto Manuscrito sem nenhum erro.



Escrito por Luiz Lago às 19h54
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146.

 

        Continuei a falar-lhe sobre mim, sobre a Cidadela da Esperança e os tempos de tribulação, mas nada lhe falei dos meus poderes e da minha timidez em usá-los. Ela então se manifestou em minha mente:

        - [Você não me respondeu porque não usa os seus poderes totalmente.]

        - [Uso sempre que é necessário.] Respondi.

        - [Você tem vergonha de usar?] Ela insistiu.

        - [Vergonha? Como posso ter vergonha de usar um dom que Deus me deu?] Afirmei, me esforçando para ser autêntico.

        Na verdade não achava que era vergonha, mas sim, um pouco de medo. Sim medo. Já havia me questionado sobre isto muitas vezes. Eu não podia ter medo. Era fundamental para a comunhão plena, não ter medo. Uma pessoa com medo não consegue comungar com o Criador. Pensando desta maneira, Kimie estaria certa. Em vez de medo, eu teria vergonha de usar os meus poderes. Ela interrompeu minhas conjecturas:

        - [Estou certa sim. Você tem vergonha de usar os seus poderes. É um conceito errado em seu intimo que lhe passou desapercebido todo este tempo e você ainda não eliminou. Os seus poderes são tantos e a sua comunhão é tão forte que este defeito passa desapercebido, mas um dia pode lhe prejudicar. Justamente no momento em que você mais precisar. O seu ego lhe deixou este gatilho do mal, escondido aí dentro desta mente brilhante. Mas eu vi o problema quando estive em você e você em mim. E agora podemos eliminar esta coisa boba de uma vez por todas. De acordo meu herói?] Finalizou Kimie com a doçura que lhe era peculiar.

        Suas palavras me emocionaram. Ela havia lido os meus pensamentos como Lea sempre fazia. Eram tão parecidas e ao mesmo tempo tão diferentes fisionômicamente. A introspecção de Kimie parecia ser mais forte, decidida, com mais energia. Ela não só conquistou a minha admiração e o meu coração, conquistou todo o meu ser, fez de mim a sua morada e estava arrumando a casa! De repente, separados fisicamente, estávamos envolvidos em espírito.



Escrito por Luiz Lago às 21h08
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145.

 

- Daí, “peguei” a estrada e viajei para o norte. Meu dinheiro era pouco, tinha que quase mendigar para poder fazer uma refeição por dia. Foi assim que cheguei a esta pequena cidadezinha. Sempre gostei de pescar e aqui foi uma colônia de pescadores. Quando os peixes ficaram escassos, por causa da pesca predatória praticada em todo o litoral do país pela industria pesqueira, o povoado, para não desaparecer do “mapa”, começou a viver do turismo. Belas praias, cachoeiras de água doce que aqui é abundante. Pousadas simples foram sendo construídas pelos ex-mestres dos mares e a vida pacata e natural fez com que o vilarejo recobrasse o fôlego e a esperança da população se renovasse. No entanto, também a industria do turismo polui e degrada em muito o meio ambiente. Na mente gananciosa dos governantes a idéia é extrair tudo o que for possível sem que nenhum investimento seja feito. Assim, logo as nascentes estavam poluídas e nas belas praias começaram a aparecer as valas negras dos esgotos não tratados e os turistas já não vinham mais para cá, seja porque outra vila com praias virgens foi descoberta, seja porque começaram a aparecer as favelas e com elas os problemas que todos sabemos, drogas, bandidagem, e foi assim que  encontrei a cidadezinha, completamente abandonada, entregue à sua própria sorte.

Ele parou, tomou um gole de café e continuou a sua narrativa.

- Logo que cheguei fiz alguns biscates na única pousada que ainda teimava em permanecer aberta e vivia das excursões de fim de semana, quando os ônibus da capital traziam os suburbanos para “um dia no paraíso”. Meu filho deve ter lhes falado que sou habilidoso, conheço um pouco de tudo, eletricidade, hidráulica, marcenaria, alvenaria, e outras coisinhas que aprendi pelas estradas da vida. Pois bem, trabalhei duro por cinco meses e reformei toda a pousada. O dono me contratou como chefe dos serviços gerais, e aí aconteceu a grande transformação da minha vida.

 



Escrito por Luiz Lago às 19h47
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144.

 

- Na noite em que ficou decidido que o senhor ia buscá-lo, mentalizei-o antes de dormir e lhe contei o que ia acontecer. Não imaginava que ele estivesse realmente participando do meu sonho. Isto é possível Comandante? Finalizou questionando.

- Bem, companheiro possível é porque de fato aconteceu. Resta-nos averiguar se não se trata de uma armação do Conselho, eles são capazes de muitas coisas.

- Pensando de forma positiva Comandante, pode ser obra do Senhor Todo Poderoso. Retrucou Josué, como que me censurando por ter pensado primeiro na hipótese negativa. No treinamento enfatizávamos muito a análise primária ser sempre positiva, para que a comunhão fluísse com mais perfeição e rapidez.

- Certo meu filho, vou pensar desta maneira, apenas comunica a Madalena tudo o que ocorreu e fiquem a postos se for necessária uma nova comunicação. Falei isto, desliguei e voltei para a pequena sala onde Roberto e Antenor desenvolviam uma boa conversa.

Com a minha chegada, ambos param ao mesmo tempo de falar e me olharam, como se eu fosse um juiz, preste a dar um veredicto sobre os estranhos acontecimentos que envolveram o início do nosso encontro. Roberto se adiantou às minhas possíveis perguntas e relatou o que estavam conversando:

- André, o seu Antenor aqui, estava me contando os sonhos que teve com o seu filho, Josué. É muito interessante, deixa-o continuar.

Sem dizer nada, maneei a cabeça em sinal de aprovação e sentei-me junto a tosca mesa onde Antenor servira meu café.

Ele iniciou com a acalma peculiar dos sábios a contar uma parte da sua vida que não tínhamos conhecimento.

- Quando me separei de Josué, me senti só e abandonado no mundo. Ele tinha as suas razões, aliás, estava mais do que certe, mas naquela época, a minha estima, o meu amor por mim era quase zero, eu tinha pena de mim, chorava por me achar um coitadinho. Pensei em muitas coisas ruins naqueles dias.



Escrito por Luiz Lago às 22h21
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143.

 

        Roberto e eu trocamos olhares desconfiados. Podia ser armação do Conselho, mas não era. Tomei a iniciativa da conversa.

        - Senhor Antenor, é este o seu nome?

        - Sim senhor, meu nome é Antenor Ribeiro Caldas, ao seu dispor.

        - Parece-nos que o senhor esperava a nossa visita?

        - Sim, esperava sim, foi meu filho Josué quem me avisou que os senhores vinham me buscar. Falou singelo, a verdade explícita em seus olhos simplórios. Roberto não se conteve e interpelou:

        - Ele lhe telefonou, escreveu, mando um e-mail, coisa que o valha? Disse um pouco exaltado.

        - Não senhor, hehehe, sonhei com ele, e no sonho ele me contou a respeito de vocês. Respondeu ele sorrindo aquele sorriso puro, desprovido de maldade, como se fosse a coisa mais normal do mundo o que ele acabara de falar.

        Novamente o olhar de Roberto encontrou o meu e nos comunicamos mentalmente.

        - [Estou sentindo que ele está falando a verdade.] Comentou Roberto.

        - [Eu também.] Respondi.

        - [Acho que devemos ligar para a casa. Seria bom sabermos de Josué como foi que isto aconteceu.] Aconselhou Roberto.

        Aceitei o conselho, pedi licença ao seu Antenor e voltei ao jardim na entrada da casa para poder falar à vontade.

        Pelo celular, liguei para Madalena, contei-lhe o que acontecera e pedi para falar com Josué. Em dois minutos ele estava ao telefone.

        - Estou aqui Comandante, está tudo bem com meu pai?

        - Sim Josué, bem até demais. Imagine que ele sabia que nós viríamos e disse que foi você quem o avisou através de um sonho. Você pode me dizer o que aconteceu de fato?

        Houve um pequeno silêncio do outro lado da linha e depois ele respondeu demonstrando surpresa.

        - Caramba, não imaginei que meus sonhos tivessem receptividade. Desde a primeira vez em que mentalizei meu pai antes de dormir, os meus sonhos com ele, pareciam muito reais. Parecia que ele me via, e muitas vezes interagia comigo. Foi ele quem me disse onde morava em detalhes. Tomou fôlego e continuou.



Escrito por Luiz Lago às 23h42
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142.

 

        Aproveitando o finzinho da claridade do dia, nos reunimos em mutirão para ajeitar o avarandado e limpar as casas para dormirmos. Para nossa surpresa, encontramos na beira da praia pequenas lagoas chamadas de lagomar cheias de camarões que foram jogados ali pelos vagalhões. Pegamos o que tínhamos para catar os crustáceos e o nosso jantar foi “divino” naquela noite. Guardamos as sobras para salgar e levar ao navio no outro dia. Entrei em contato mental com Kimie.

        - [Vocês estão bem?] perguntei.

        - [Graças a Deus, e vocês?] ela respondeu.

        - [Bem graças a Ele também. O dia foi muito cansativo, você está melhor do ferimento na cabeça? E o braço, ainda dói.] Continuei.

        - [Não fica preocupado comigo comandante. Estou bem. O braço anda dói um pouco, mas amanhã tenho certeza que você vai deixar ele novinho em folha. Você tem muito poder André. Porque tem receio de usá-lo.]

        Aquela pergunta me pegou desprevenido porque ela, de repente, mudou o rumo da conversa. Lembrei de Lea. Era o seu jeito de entrar no assunto que lhe interessava.

        Tinha que para e pensar um pouco antes de responder. Afinal, estava iniciando uma relação e precisava ser muito honesto e transparente. Minha experiência em relacionamentos me deu a convicção que um relacionamento, seja do tipo que for, amizade, amor, sociedade, trabalho, só prospera se for fundamentado na absoluta verdade. As pessoas envolvidas devem se apresentar como verdadeiramente são. De outra forma, mais adiante, a vida e o convívio, mostrará o que ela quis esconder. Daí, no meu caso, embora Kimie soubesse muito a respeito do meu ser espiritual, quando nos introjetamos mutuamente, desconhecia quase que totalmente o ser mental, a minha matéria.

        Esperando que ela não se decepcionasse, comecei a lhe falar a respeito de mim, um pouco da minha historia de vida, dos meus fracassos, até alcançar o ser vitorioso que me tornei graças a Jesus Cristo. Ela ouvia sem dizer nada.      



Escrito por Luiz Lago às 20h29
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141.

 

        -[Tudo é possível para quem crê em Deus!] Ela respondeu e continuou a falar como se estivesse me chamando a atenção.

        -[Você deveria estar fazendo o mesmo aí na praia com as meninas. Por favor, vamos nos unir em oração.]

        As palavras de Kimie provocaram uma reação imediata em meu cérebro. Voltei correndo para a casa principal e pedi que todas se reunissem comigo na praia. Rapidamente estávamos todos de mão dadas, ajoelhados num grande círculo, a despeito do vento e da chuva intensa entrando em comunhão com o Todo Poderoso.

        Não era fácil entrar em comunhão nas situações extremas como aquela. Diferente do que comumente chamamos de meditação, a comunhão é um exercício de fé. A certeza de que o Divino Espírito Santo habita em nosso ser, e a convicção que somos seres espirituais, mais do que materiais, e, portanto, podermos através desta ligação, comungarmos com o Todo Poderoso e interferirmos nas diversas situações relacionadas com a matéria que nos envolve. Naquele momento nossa fé estava sendo testada.

        Senti a vibração energética tomar conta do meu ser, sinal que o grupo conseguira entrar em comunhão. Em seguida, com a união de todos os espíritos, sentimos a união do nosso círculo com o círculo que estava formado no navio. E de imediato o turbilhão da tempestade assolou os nossos corpos entregues ao comando divino.

        Os dois círculos saem da imobilidade e começam a girar com uma rapidez incrível. E isto apenas com a força da nossa mente em comunhão. Giravam em sentido contrário à força dos ventos e assim, conseguimos neutralizar o vento forte e depois de alguns minutos que pareceram horas, os ventos cessaram e a tempestade foi se afastando aos poucos. Todos caímos exaustos na fina areia da praia. Uma nesga de céu apareceu deixando ver os últimos raios de sol que mergulhava no mar, refrescando-se de um dia quente e cansativo, prenúncio de um bom tempo para o outro dia.  

 



Escrito por Luiz Lago às 22h11
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140.

 

        A tempestade veio com tudo! O céu ficou negro como a noite e eram apenas cinco e meia da tarde.

        A velocidade do vento devia ser superior aos cem quilômetros por hora. Em segundos, o avarandado recém reformado da casa maior, foi pelos ares. Arrependi-me de ter tido a idéia de trazer as meninas para a praia, talvez estivessem mais protegidas no navio. Mas como poderia prever a tempestade? A minha culpa era maior porque eu podia sim prever a tempestade.

O desenvolvimento mental resultante da prática da comunhão e introspecção permitia que sentíssemos acontecimentos futuros. As visões que os mestres tinham, eram, na verdade, previsões. No entanto podíamos bloquear este sentido e era o que eu fazia. Nunca gostei de saber o futuro. Minha vida era processada segundo a segundo, minuto a minuto, dia a dia. Teria que repensar esta decisão. Agora muitas vidas estavam em perigo pela minha intransigência em não querer saber os acontecimentos do futuro.

Pensava nisto quando um ruído muito forte chamou minha atenção. Era a corrente da âncora do navio que havíamos enterrado na praia que, de repente foi retesada. Isto queria dizer que o navio havia se movimentado! Fiquei apavorado com a possibilidade das ancoras não conseguirem segurar o navio. Corri até onde estava a enorme peça enterrada e notei que a força do mar conseguira movê-la dez metros em direção ao mar.

Tentei contato mental com Julia, mas foi Kimie quem respondeu à minha mensagem telepática.

- [Sou eu André, Kimie. Como estão as coisas por aí?]

- [Você tem que repousar Kimie, onde está Julia?]

- [Como posso repousar se o “mundo está caindo em nossas cabeças?”] Senti o tom enérgico das suas palavras na minha mente.

Insisti com ela sobre Julia.

        - [Responde meu anjo, onde está Julia?]

        - [Está reunida com as meninas em comunhão. Ela disse que temos que parar esta tempestade ou todos morreremos.]

        - [Parar a tempestade? Como isto é possível menina.]



Escrito por Luiz Lago às 01h10
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139.

 

        Josué nos surpreendeu mais uma vez. Ele sabia onde seu pai estava! E nos tranqüilizou quanto ao seu caráter.

        - Meu pai encontrou o seu caminho comandante André, falou.

        - Como você pode saber, se não o vê a mais de cinco anos? Interpelei-o.

        - Tenho sonhos com ele. Sei que está bem, e que estabilizou a sua vida. Sei inclusive onde mora. Os senhores podem comprovar se forem até lá. Finalizou.

        Percebemos que ele estava convicto naquilo que afirmara. Sabíamos que os seus poderes eram enormes, mas não imaginávamos que eram tão extensos. Alguns de nós, podíamos, com bastante esforço, localizar uma pessoa, mas sem muita precisão. No caso de Josué ele disse o estado, a cidade, a rua e o número da casa onde morava o pai dele.

        Fizemos uma reunião para decidir. Houve unanimidade na decisão e eu e Roberto, fomos até o endereço buscar o senhor Antenor, pai de Josué. Ele não poderia ser visto conosco por causa da sua iminente missão. O Conselho poderia desconfiar de algo.

        Viajamos de jatinho e depois de automóvel alugado até uma pequena cidade à beira mar no sudeste do país. Um dia de viagem e estávamos em frente á casa que Josué havia dito que morava o seu pai. A casa era simples, mas o jardim era exuberante, havia uma placa dizendo: Vendo Plantas.

        Batemos palmas e um senhor grisalho, com uma grande barba branca nos atendeu. Estava vestido com simplicidade: bermuda branca, camisa azul claro, pés descalços. Nos recebeu com um sorriso, e mesmo sem que disséssemos o motivo da nossa visita nos mandou entrar. A casa era pequena, com poucos móveis, mas limpa e bem organizada. Uma sala conjugada com a cozinha, talvez um quarto e um banheiro era tudo o que podíamos ver. Sentimos um cheiro de café feito na hora e de imediato veio o convite para sentarmo-nos à mesa e tomar um café. Parecei que Antenor sabia que ia ser visitado. Acontece que de fato ele sabia!



Escrito por Luiz Lago às 20h09
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138.

 

        Josué conseguiu um pequeno quarto com um banheiro, nos fundos da casa deu uma senhora da sua igreja, por um preço que podia pagar. Limpava o pátio nos fins de semana e passeava com os cães da senhora, dois pastores alemães. Em retribuição ela o convidava para cear todos os dias, antes dele ir para o cursinho, e muitas vezes esta era a única refeição descente que ele fazia durante todo o dia.

        No início do ano, foi aprovado em segundo lugar, no curso de engenharia química da universidade federal, única instituição para onde prestou concurso, visto que não poderia pagar uma faculdade particular. Conseguiu um estágio numa indústria de tintas e nos fins de semana fazia bicos para aumentar os seus rendimentos. Econômico, em dois anos deu entrada num “kitinet”. Enfim tinha a sua própria casa. Formou-se e foi o orador da turma. Os seus padrinhos de formatura foram a senhora que o acolhera e o Pastor da sua igreja. Foram quatro anos de muita luta e noites mal dormidas compensadas pelo diploma de nível superior. Deixara de ser estudante e agora estava desempregado!

        Foi quando viu o nosso anúncio de recrutamento num folheto da sua igreja. A distância de onde morava, quase o fez desistir, mas alguma coisa lhe dizia no seu coração que deveria tentar aquela colocação. Com a indenização que recebeu da industria de tintas, pagou uns meses adiantados do financiamento do seu apartamentinho e veio até nós. Madalena ficou encantada com ele e logo na primeira entrevista e sua história também foi interessante. Precisávamos de pessoas com poucos laços familiares para trabalhar na parte secreta do nosso projeto.

        Também não foi surpresa para ela quando seu dom afluiu.

        O que surpreendeu madalena foi o pedido que fez quando aceitou a missão. Depois de tantos anos, como poderia encontrar o pai? E se ele não passasse nos testes para ser morador da cidadela?



Escrito por Luiz Lago às 23h44
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137.

 

        Josué aceitou ser o nosso espião junto ao Conselho. Mas fez um pedido: Queria trazer seu pai para morar na cidadela.

Sua história de vida era muito interessante e triste também.

Havia perdido a mãe com câncer muito pequeno e fora criado pelo pai, um homem inteligente e habilidoso, mas que não gostava de criar raízes, viviam mudando, cidade em cidade, estado em estado. Além disto não se firmava com nenhuma mulher. Não conseguia esquecer seu único e verdadeiro amor, a mãe de Josué. O menino viveu assim, com muitas “madrastas”, em muitos lugares. Seu estudo foi intermitente, mas conseguiu completar o segundo grau com dezoito anos. Foi quando rompeu com o pai.

        Eles moravam no sul do país. Josué conseguira um emprego e estava estudando à noite para entrar na faculdade de engenharia química, seu grande sonho. Uma noite chegou em casa e encontrou as malas arrumadas. Seu pai lhe comunicou que iam mudar novamente. Ele se cansara daquele lugar, era muito frio, não tinha muitas oportunidades de trabalho, e a namorada o havia abandonado. Era claro para Josué que este era o motivo principal da mudança. Sempre que seu pai terminava com uma namorada, pegava a estrada para outro lugar. Desta vez, o rapaz não aceitou os argumentos do pai. Sem discutir, porque sempre fora de temperamento tranqüilo, pegou a sua mala e foi para a casa de um colega de trabalho. O pai, ainda o tentou dissuadir, procurou-o na casa do colega, prometeu que seria a última vez que se mudavam, mas ele estava convicto que aquela era uma decisão importante e positiva para a sua vida e não aceitou. Nem as lágrimas de seu pai conseguiram demovê-lo da idéia de não partir com ele.

Depois daquele dia nunca mais viu o pai.

 



Escrito por Luiz Lago às 18h43
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136.

 

        Num instante segurei forte o seu pulso e tomei impulso de volta para cima. Ela não ofereceu nenhuma resistência, estava desacordada e ferida!

Quando cheguei à superfície, um bote com três defensoras assustadas, chacoalhava no turbilhão em que se transformara o mar. Colocamos Kimie no bote e a conduzimos para o navio. Lá ela seria mais bem atendida. Com dificuldade iniciei o procedimento de primeiros socorros para afogados e nem me passou pela cabeça que meus lábios tocavam os seus pela primeira vez. As ondas dificultavam o procedimento e o meu cérebro calculava o tempo que ela poderia estar desacordada, para saber quanto tempo ainda tinha para ressuscitá-la. Ainda estava em comunhão, estava calmo e seguro do que estava fazendo.

Chegamos ao navio e quando a coloquei no meu ombro para subir até o convés senti que ela regurgitou a água que havia ingerido e começou a tossir, recobrando a respiração. Todos ficamos aliviados e agradecemos a Deus por aquela bênção.

Julia preparou a pequena sala onde havia ficado para receber Kimie e ajudou-me a examiná-la. Ela estava com uma luxação no braço direito e um pequeno corte na lateral da cabeça. Julia fez o curativo e improvisei uma tipóia para imobilizar o braço machucado. Kimie estava tremendo de frio, preparamos uma bebida quente e a cobrimos para evitar um resfriado. Ela me agradeceu por ter salvado a sua vida, e disse-lhe brincando que a beijara diversas vezes. Todos rimos e agradecemos novamente ao Criador por ter nos amparado naquela hora. Em particular agradeci por não ter me separado tão prematuramente da minha menina.

        Acontece que eu não poderia ficar ali parado porque a tempestade estava cada vez mais perto. Tinha que soltar a outra âncora, mesmo que fosse ali mesmo. Foi o que eu fiz e voltei para a praia. Levei a empilhadeira para o local mais protegido possível e revisei as proteções das portas e janelas e fiquei esperando o céu desabar.



Escrito por Luiz Lago às 19h09
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135.

 

        Tudo aconteceu numa fração de segundos. Num instante Kimie fazia o mesmo movimento anterior para alcançar a outra âncora e em outro estava caindo na água.

        Vendo seu corpo caindo, tentei lembrar do que ocorrera. Uma lufada de vento a desequilibrara e seu corpo bateu no casco do navio. A batida devia ter sido forte o suficiente para que ela largasse a corda. Este pensamento levou menos de cinco segundos e logo eu me atirei na água fria e agitada, e comecei a nadar em direção ao navio, na tentativa de alcançar o ponto onde Kimie havia caído. O mar era fundo ali e a cada braçada que eu dava, levantava a cabeça para ver se via a minha menina. Mas ela não aparecia na superfície. Concentrei todas as minhas forças até que cheguei mais ou menos no lugar onde ela caiu. Não havia quase iluminação por causa da tempestade e o respingo das ondas batendo no casco ofuscavam mais ainda a minha visão já debilitada.

        Nestes momentos, mesmo os mais preparados espiritualmente como eu, reconhecem o quanto são fracos e incapazes e o quanto dependem de Deus para viver as nossas vidas. Mas aqueles que em espírito e verdade se posicionam ao lado do Senhor Jesus se fortalecem nestes momentos, porque são fortalecidos por Ele, o Salvador. “Quando sou fraco aí é sou forte porque? Tudo posso naquele que me fortalece”.  Com este versículo em meu pensamento, me entreguei à comunhão de uma forma que nunca antes havia experimentado. Minha sensibilidade aumentou tanto que podia sentir cada borbulha que se formava na água revolta, percebia o movimento de cada peixinho, ou qualquer outro ser vivo que naquele momento estava próximo de mim. Meu corpo brilhava, tamanho era energia espiritual que eu agregara. Em segundos pude sentir onde estava Kimie e mergulhei em direção a ela nadando vigorosamente. Não precisaria nem abrir os olhos, porque, a sua presença era tangível ao meu coração.



Escrito por Luiz Lago às 20h30
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133.

 

        - Não. Afirmou ela calmamente, saboreado o suspense e continuou:

- Pensei em outra pessoa para esta missão.

        - Quem? Perguntamos todos novamente.

        - Josué, disse Madalena com um leve sorriso no canto da boca, do jeito que uma exímia jogadora faz quando tem um trunfo na “manga”.

- De novo todos falaram ao mesmo tempo:

- JOSUÉ?

- Ele nem faz parte do grupo de comando! Afirmei um pouco exaltado.

- Por isto mesmo, o Conselho não o conhece. Não sabe do seu treinamento, pensa apenas que é um empregado nosso, meu assistente, o que lhe confere uma maior importância estratégica. Entenderam? Falou Madalena, ainda naquele tom de quem sabe do que está falando.

Fiz uma pequena introspecção para controlar meu ego e analisar melhor a idéia. Os fundamentos estavam corretos, a proposta ousada, mas interessante, poderia dar certo. Externei as minhas conclusões aos outros membros do grupo.

Foi Alberto quem levantou a questão mais importante:

- E se Josué não aceitar, afinal o risco é muito grande. Disse Alberto.

- Tenho certeza que ele vai aceitar. Respondeu Madalena.

Fiquei imaginando se ela já teria falado com ele. Não me atrevi a introspectá-la, com certeza saberia que eu tentava descobrir a verdade e isto prejudicaria o nosso relacionamento. Preferi assumir a responsabilidade do meu comando e determinei que Josué fosse chamado para tomar ciência do assunto e dizer se aceitava ou não a missão. Estávamos na sala de comando da mini fortaleza na gruta. Era um “bunker” impenetrável, isolado de tudo, onde nos reuníamos para tomar as decisões importantes e secretas.

Josué levou alguns minutos para chegar até nós. Era a primeira vez que ele entrava naquela sala, mas não se surpreendeu. Parecia que já sabia de tudo.

        Quando entrou no recinto introspectei-o. Para alivio meu, ele não sabia nada do que estava acontecendo. Depois de tomar ciência de tudo, deu a sua resposta.



Escrito por Luiz Lago às 20h19
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