Blog Riacho Mágico
   
 
   



BRASIL, Sudeste, MARICA, Ponta Grossa, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, Gastronomia, Cinema e vídeo, Pesca
Outro -
 

  Histórico

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 Orkut




 

 
 

30.

 

        Puxa! Quando ocupamos a mente com boas lembranças, o tempo passa rápido, pensei enquanto guardava as minhas anotações. Ri um pouco daquela situação insólita. Porque estou fazendo estas anotações todas. Era apenas para ser um diário de viajem para caso me acontecesse alguma coisa, deveria servir para quem viesse depois de mim. De repente estava anotando tudo, inclusive as coisas que haviam acontecido há tempos atrás, como se fosse escrever um livro. Quem ia ler? Caí na gargalhada, e o meu riso forte ecoou entre as paredes nuas e queimadas da cidade deserta.

        Eram umas quatro horas da tarde. Havia caminhado oito horas como estava acostumado, e não me sentia tão cansado como quando caminhei no deserto. Alguma coisa dera errado nesta caminhada. Devo ter me distraído com meus pensamentos, e descuidei das coordenadas. Verifiquei minha posição. Sem querer tinha derivado para o sul alguns graus, e por isto não consegui chegar nem ao descampado que antecede a cratera. Resolvi caminhar mais um pouco, até perto do anoitecer, pelo menos, para compensar os quilômetros perdidos. Nada é por acaso, pensei.

        Enquanto caminhava, depois de uma hora e pouco, notei que os escombros foram ficando mais esparsos, e de repente, me vi na planície. E no deserto novamente!

        Sentei desanimado numa rocha e olhei para aquela imensidão de areia e pedra, muitas, mais pedras do que havia no deserto que deixei para trás. Como transpor mais este obstáculo inóspito? Quantos quilômetros ainda? E a falta d’água? Ainda havia a cratera. Outra incógnita e pensamentos negativos me rondando! Resolvi descansar, buscar a comunhão, pensei, e logo me veio em mente a Palavra: – “Os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor”, conforto e defesa contra todos os meus temores.

        Voltei atrás, buscando um abrigo entre os últimos escombros para passar a noite que se aproximava.



Escrito por Luiz Lago às 18h10
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

29.

 

Tudo se localizava em torno da Prefeitura, que ficava também em frente à praça.

        Jantamos num restaurante pequeno e aconchegante, dirigido por uma senhora morena, simpática, Dona Neca, que nos apresentou um prato típico da região, Guisado Maria Luiza, com arroz, feijão preto e salada verde. Uma delícia. Depois foi a vez da sobremesa um doce de laranja de dar água na boca.

        Após o jantar conversamos um pouco com Dona Neca, mais por retribuição a forma gentil com que ela nos tratou, e também como pesquisa, visto ser aquele o restaurante melhor freqüentado da localidade. É claro que não falamos para ela o nosso verdadeiro interesse em estar ali. Curiosa pela nossa presença, Dona Neca, forneceu detalhes da sociedade local, nomes de pessoas influentes, e até nos contou algumas e curiosidades fofocas do lugarejo.

        Contou-nos que recentemente havia acontecido uma situação delicada e até cômica com um fazendeiro, cliente seu. A esposa do sujeito, seu Alberto, era este o nome dele, havia fugido com o padre da cidade. Era um padre jovem que viera em substituição ao padre Antenor que falecera de velhice com mais de noventa anos. Neca falava gesticulando e com tantas caretas que caímos na gargalhada com os detalhes daquela triste situação.

        Pois o tal de seu Alberto, depois do ocorrido, ficou meio abestalhado, contou-nos ela, e começou a falar em final dos tempos, fim do mundo mesmo, que estava próximo, dizer coisas sem nexo sobre visões relacionadas com as suas terras.

        Neste ponto passei a me interessar pelo assunto. Afinal, algumas coisas que ela disse que ele falava, batiam com a minha visão. As suas terras poderiam ser as que eu procurava. Notei que Roberto também ficou intrigado com o relato de Neca.

        Agradecemos a hospitalidade, pagamos a conta e voltamos para o hotel decididos a procurar o homem no outro dia. Só que não foi isto que aconteceu.



Escrito por Luiz Lago às 17h57
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 

28.

 

        Como observamos da mini fortaleza, aquela região havia se transformado num grande deserto. Nossas precárias leituras meteorológicas indicavam que estávamos instalados exatamente na divisa deste imenso deserto, que se formara no meio do continente.

        Lembrei-me de como escolhera a propriedade para instalar a “Cidade da Esperança...”.

        Roberto me fez vender o meu carrinho e comprar uma boa camionete, cabine dupla, com tração nas quatro rodas e movida a óleo diesel. Fiquei apavorado com o preço, o que deram pela minha “fubica” não pagava nem uma porta daquele carro, e não era zero km, mas estava em ótimo estado de conservação e de mecânica.

        Esperamos a época da estiagem, pois naquela região chovia bastante e as estradas não eram boas. A viagem transcorreu tranqüila e, em um dia chegamos à cidade próxima do local indicado na visão. Combinamos fazer primeiro, uma pesquisa em relação a preços e condições das terras por ali.

        O lugar era lindo! A maior parte, uma grande planície com muita água e rios, e próximo, uma grande mata fechada que rodeava uns montes, não muito altos. Existiam fazendas de gado e plantação de soja, arroz e milho. Também, nas proximidades da cidade alguns pequenos sítios se encarregavam do abastecimento de frutas, verduras, legumes, ovos, galinhas, porcos, enfim, um cinturão verde que proporcionava autonomia à região.

        A cidadezinha situava-se no alto de uma leve colina, de onde se podia descortinar toda esta beleza natural.

        Nos hospedamos num hotelzinho simples e simpático logo na entrada da cidade. As pessoas do lugar, quando viam a placa na camionete, nos olhavam intrigados: o que estes sujeitos da cidade grande querem por estas bandas? Eles deviam pensar.

        Depois de um bom banho fomos ao centro, à pé, reconhecer o terreno e localizar os lugares que teríamos que ir no dia seguinte: corretores de imóveis, cartório e banco. Levamos menos de cinco minutos até chegar ao centro da cidade, a Praça da Matriz, e menos de um para fazer o nosso reconhecimento.



Escrito por Luiz Lago às 21h48
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 

27.

 

        Minha única preocupação fora à falta da água, era com a radiação. Enquanto caminhava, olhava constantemente para o medidor de radiação. Nenhuma alteração. Até pensei que o mesmo poderia estar estragado, daí examinei-o e fiz alguns testes que André Junior tinha me ensinado e constatei que estava funcionando com perfeição. Devia estar a menos de um quilometro do descampado que avistei na ultima parada. A radiação ali poderia estar mais elevada devido a proximidade da cratera. A menos que aquela cratera não tenha sido ocasionada por uma bomba. Tudo me indicava que sim, segundo as notícias daqueles dias terríveis. Seria muito bom se estivesse errado. Era o que o medidor de radiação indicava. Se a cratera tivesse sido o resultado da explosão de uma bomba, por certo a radiação seria muito maior, mesmo depois de quatro anos. Deus está no comando, pensei. Devo ser mais otimista e confiar mais. “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia Nele, o mais Ele fará.”, foi o versículo que me ocorreu. A lembrança me aliviou o coração.

        Uma coisa estranha era que não tinha me deparado mais com nenhuma formiga, Graças a Deus, pensei. Nem formigas e nem outro tipo qualquer de vida. Embora não estivesse no deserto, onde apenas me apareceu a serpente, que poderia ser uma ilusão, a ausência de vida me fazia sentir um vazio enorme, como se estivesse num grande cenário de filme de ficção científica totalmente esterilizado. Uma realidade, irreal, fora dos padrões da concepção humana. Um mundo morto, estático e sem movimento. A única sensação de atividade além da minha era o amigo Sol que se deslocava diariamente do oriente para o ocidente e do que restou da Lua, à noite, aparecendo de acordo com as suas fases sem o glamour de antigamente. Nem nuvens apareciam naquela terra transformada em caatinga.



Escrito por Luiz Lago às 18h54
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

26.

 

        Enquanto recordava os acontecimentos que me levaram a empreender esta aventura, caminhei por entre os escombros do que restou daquela cidade em direção à cratera. O sol não castigava tanto como no deserto, mas continuava bem forte. Caminhei sempre buscando as sombras das paredes ainda em pé, visto que nenhuma arvore sobrou depois da catástrofe. Observei que nenhuma vegetação havia brotado do solo e consultei o medidor de radiação para saber qual o nível de radiação estava me expondo. Até aquele momento, tudo bem, existia sim radiação, mas tolerável para o meu organismo protegido.

        Grande herança Lea havia me deixado. O controle quase absoluto do que meu corpo podia ou não absorver. Dei graças a Deus por isto e resolvi parar para o primeiro descanso do dia.

        Naquelas quatro horas de caminhada me cansara menos, pois o terreno era firme, mas senti mais sede. Procurei um lugar alto onde pudesse ter uma visão melhor da minha localização. Escalei uma parede até o que sobrou de uma varanda no segundo piso. O espaço era pequeno e perigoso, por isto, tomei cuidado para não escorregar, seria uma queda de quase seis metros.

        Era uma boa posição, não avistei a cratera, mas sim uma clareira grande à frente, uma e meia hora de caminhada de onde estava. Devia ser próxima a cratera, pensei. Desci de onde estava, me alimentei de cereais e nozes, tomei um pouco de água e notei desanimado que minha água estava mesmo no fim. Uma pontinha de desânimo tomou conta do meu coração. Busquei na Comunhão com Deus a força, coragem e principalmente a orientação para mais este percalço. Em minutos consegui entrar em Comunhão e assim permaneci por quase uma hora. Quando despertei do transe espiritual, me senti renovado, corporal e espiritualmente. Arrumei meu equipamento e continuei minha jornada.



Escrito por Luiz Lago às 19h24
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 

25.

 

 Apresentei-me como voluntário para a missão, quase todos discordaram, considerando minha posição no comando. Argumentei que o meu avançado estágio na Comunhão me proporcionava um preparo maior para enfrentar as dificuldades que certamente ia encontrar pela frente. Minhas chances de sobrevivência eram maiores do qualquer um na mini fortaleza. Meus poderes de introspecção e preparação corporal, me protegeriam contra possíveis ataques de sobreviventes hostis, animais ou pessoas, além de elevar minha tolerância à radiação que estaria mais forte nas proximidades do meu destino. Com algumas relutâncias, principalmente dos meus filhos, preparei-me para a enfrentar a viagem.

Roberto e meus filhos me conduziram em um dos nossos “blindados”, até o início do deserto. O veículo, uma adaptação de carro popular, com “cara de Jipe” e carroceria blindada, tem um motor elétrico movido por energia solar, com tração nas quatro rodas, pneus lameiros, consegue com quatro pessoas a incrível velocidade de 60 km por hora. Era outra invenção brilhante do meu filho André Junior.

Saímos da mini fortaleza ainda noite, contando com a energia das seis baterias carregadas no dia anterior. Quando o sol nasceu, já havíamos percorrido mais de cem quilômetros. Chegamos ao destino às quatro horas daquele mesmo dia.

Havíamos feito aquele percurso duas vezes na tentativa de chegar até o mar. Aquele era o caminho mais curto, e com o melhor trajeto, visto que as estradas não foram castigadas pelos terremotos e explosões. Levamos na primeira vez mais de três meses para percorrer os quase setecentos quilômetros, pois tivemos que construir quatro balsas para atravessarmos rios mais caudalosos e duas pontes rústicas, sobre os dois regatos que encontramos.

Na segunda vez fomos e voltamos em vinte e quatro horas de sol, fora o tempo gasto com a expedição ao deserto. Avançamos a pé no deserto por dez quilômetros, mas voltamos. Preparávamos uma terceira expedição quando recebemos o pedido de socorro.



Escrito por Luiz Lago às 19h13
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

24.

 

Foi numa noite, em torno de onze horas que o velho rádio se manifestou, claramente uma voz feminina disse em nosso idioma:

- “Por favor, socorro, se alguém estiver me ouvindo! Estamos em perigo, por favor, ajudem-nos!”.

Enquanto Marco um dos guardiões, corria para sintonizar melhor a recepção, o outro, Ivan, entrou em contato com o supervisor que logo me acionou e aos outros chefes. Corremos todos para a sala de comando. Ouvimos a voz, um pouco mais clara, passar ao Marco as coordenadas do local em que as pessoas se encontravam. De acordo com o que pude ouvir, as linhas do pedido de socorro, tinham alguma coisa que me era familiar. Pareciam seguir instruções do MMSH - Manual e Mapas para Sobreviventes do Holocausto que publiquei e divulguei por todos os meios de comunicação e em vinte línguas estrangeiras, seis meses antes da catástrofe. Peguei o microfone da mão de Marco e falei:

- Aqui quem fala é o Comandante André Perez, quem está falando aí? Diga o seu nome e o lugar de onde você está enviando esta mensagem. Esperei alguns segundos e repeti a mensagem, Mais uns segundos e veio a resposta:

- “Quem fala é Madalena! Precisamos de ajuda! Falamos da Cidade da Esperança...”

E o rádio emudeceu novamente. Só estática podia ser ouvida. Passamos muitas horas tentando contato naquela freqüência e nenhuma resposta.

Analisamos as coordenadas e constatamos sua exatidão, de acordo com os nossos mapas. Eles possuíam um mapa do MMSH. A ultima frase e a localização indicada nos deixou perplexos. Reunimos o comando e traçamos um plano para chegarmos até aquelas coordenadas. Nossos recursos de locomoção eram precários. Reunimos o comando e avaliamos a situação. Foi quando um novo chamado aconteceu.

Desta vez foi pela tarde e a maioria dos chefes estava na sala. A mesma voz feminina, um pouco mais fraca:

- “Por favor, Comandante André, estamos sem comando aqui, precisamos de ajuda, pouca água e quase nenhuma comida, somos quase mil pessoas...”.

O rádio ficou mudo novamente. Diante deste novo apelo decidimos ajudá-los!



Escrito por Luiz Lago às 16h19
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

23.

 

Para iniciar a Comunhão, é necessário desapegar-se totalmente da matéria e é muito difícil um ser material como somos, deixarmos de amar o que podemos tocar.

Subjugar os nossos egos enormes e ditadores em nós, é a segunda etapa, tão difícil quanto a primeira. Depois a terceira etapa que é a disciplina. Dias e dias seguindo o mesmo ritual, a mesma postura, horas á fio ajoelhados, sem comer, sem beber, apenas buscando com todo o nosso coração, a centelha divina em nós, a chama do Senhor que habita em cada ser humano. Assim começa a Comunhão. Liberado de todo o afã material, de toda a tentação orgulhosa do ego e postado perante o Senhor como um cristal transparente, imaculado. Daí resulta a fé que move montanhas, que faz com que rios e mares se abram, que faz parar o tempo.

Sem a Comunhão eu nada seria, e nem poderia estar aqui agora, além de não ter conseguido nem um milésimo do que realizei. Sem ela não poderia me proteger deste mundo desconhecido devastado e destruído pela ação maligna do ser humano. Muito menos ter a certeza de que era uma pequena peça do enorme quebra-cabeça da reconstrução do mundo.

Viajando nestes pensamentos, me lembrei novamente da mensagem que recebemos em nossa mini-fortaleza.

Fazia mais de um ano que os rádios só transmitiam estática. Decidimos, com objetivo de prolongar a vida útil daquelas máquinas,  ultrapassadas em nosso tempo, mas muito importantes agora, depois que o pulso eletrônico acabou com a maioria das máquinas eletrônicas de ultima geração, a deixar apenas um dos rádios ligado, o mais potente, com maior amplitude, praticamente mais de vinte mil quilômetros. Ele fica na sala do comando da mini fortaleza, no abrigo subterrâneo, junto com os instrumentos de comunicação e vigilância. Existem sempre dois guardiões nesta sala, que fazem turnos de vigilância de oito horas diariamente. Dali se pode acompanhar todas as atividades na mini fortaleza, no subterrâneo e as atividades externas, na fazenda, além do controle das divisas e dos portões.



Escrito por Luiz Lago às 18h48
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

22.

 

        Para quem procura diariamente a comunhão com o Espírito do Senhor, a vida fica mais fácil. Na comunhão você entrega a sua vida nas mãos de Deus, ELE assume o comando total de seus atos e atitudes. Embora isto possa parecer que você fica tolhido, que perde a liberdade, é exatamente o contrário o que acontece. Na sua entrega de livre e espontânea vontade o seu querer ao querer divino, você passa fazer parte da comunhão universal do qual o Senhor é o Todo. Você passa a usufruir toda a energia e poder que emanam do EU SOU.

É claro que seu corpo material é frágil e impõe limites a este uso, mas a nível mental, intelectual, de sabedoria mesmo, você consegue chegar a conclusões e tomar atitudes, muito mais rápido do que quem não está em comunhão. A introspecção, por exemplo. Em comunhão seus sentidos são expandidos a níveis fantásticos, possibilitando a auto-análise, mental e corporal de você mesmo. É um pouco difícil explicar, mas você consegue analisar a sua saúde, e até curar-se de alguma doença ou mesmo da algum ferimento, ou neutralizar algum veneno que tenha penetrado em seu corpo apenas com o poder da sua mente em comunhão com o Santo Espírito. Foi Lea quem me ensinou e ajudou a aperfeiçoar este poder em mim. Presenciei por duas vezes ela ressuscitar um ser. Uma ave, morta pela poluição do mar e meu filho. Neste último caso ela deu sua vida, sua energia divina para que André Junior pudesse viver.



Escrito por Luiz Lago às 19h30
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

21.

 

        Eram seis e meia da manhã. Arrumei as minhas coisas e olhei pela varanda do quarto e o que avistei me encheu de horror. O apartamento ficava numa parte alta daquela região. Não percebi isto na noite anterior porque estava mais preocupado em me defender de possíveis perigos, daí fui subindo devagar. Da varanda dava para ver um labirinto de prédios semi-destruídos, que acabavam, abruptamente, como se fosse numa enorme cratera. Possivelmente o local de um dos impactos.

        Consultei meus mapas, a bússola, orientação solar e concluí que estava na direção certa. Mas o que seria certo numa situação destas? – Pensei. Meus cálculos me indicavam que teria ainda mais uns 60 a 70 km pela frente. Isto em linha reta!

        Entrei em comunhão antes de me alimentar. Foi um dos melhores momentos que passei ao longo de toda caminhada. A certeza, a convicção de que ia alcançar o meu objetivo, e que tudo ia dar certo, tomou conta da minha mente e se alastrou por todo o meu ser. ELE nunca falha, pensei.

        Comi algumas nozes e passas e tomei um gole de água. Diferente da caminhada no deserto teria muita sombra pela frente, e isto me animava. Além da possibilidade de encontrar água potável. A minha só duraria mais três dias no máximo. Estava na conta, mas aquela cratera bem no meio do meu caminho era um problema.

        Ao descer para o primeiro piso, passei pelo banheiro, e notei num canto da parede algo que me pareceu ser um espelho. Limpei o vidro cheio de fuligem e vi minha imagem refletida nele. Parecia um cadáver! As marcas do sol no meu rosto, manchas diversas, minha boca empolada e ressequida, meus olhos lá no fundo. Coloquei aquele pedaço de vidro dentro da minha mochila e desci.

        Examinei bem a oficina, poderia encontrar alguma ferramenta que pudesse precisar, mas apenas algumas chaves de mecânico e um martelo de ferro. Martelo eu tinha, e ferramentas não precisaria, pelo menos por enquanto.

        Saí do prédio e iniciei minha caminhada. Primeiro dia à luz do sol. Era uma novidade positiva. Sempre adorei o sol!



Escrito por Luiz Lago às 17h27
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

20.

        Lembrei-me daquele dia em que as coisas se definiram em relação à Cidade da Esperança. Depois de conseguir a custo comprar o bilhete, voltei naquela noite mesmo para casa, onde cheguei exausto. No outro dia, a feliz notícia através do jornal – meu bilhete ganhou o primeiro prêmio, uma quantia razoável que imaginei aplicar poupança até saber o que fazer como ela.

        A certeza veio em uma visão tão específica que parecia um manual de instruções, naquela mesma noite. Devia comprar uma propriedade que pudesse abrigar o projeto. Havia um problema, o lugar onde se situava esta propriedade, segundo a visão, ficava a mais de mil quilômetros de onde eu morava. Seria uma mudança e tanto, além de ficar muito longe dos meus filhos, ficava no interior, longe do litoral, longe do meu adorado mar.

        Roberto já sabia da minha façanha em relação à loteria, lhe contei no mesmo dia. Nos encontramos na capital, quando fui resgatar o prêmio. Desacostumado a lidar com altas quantias, pedi ao meu amigo que me acompanhasse e aconselhasse quanto ao melhor, ou melhores investimentos. Queria falar pessoalmente sobre a ultima visão. Ele pareceu mais feliz do que eu.

        - Quem diria André! Você um homem rico! Milionário! Afirmou sorridente quando nos encontramos no seu consultório.

        - É verdade, amigo, mas você sabe que isto tudo tem destinação certa. Os planos já estão definidos.

        - Já? Você não me falou nada. Foi outra visão?

        - Foi, respondi. E a coisa ficou complicada.

        - Como assim? Perguntou intrigado.

        Contei tudo detalhadamente para ele. Levei até os dados que anotei tão logo a visão se desvaneceu.

        - Este lugar é muito longe André. O que você pensa fazer? Perguntou.

        - Uma coisa eu sei amigo, desobedecer a visão, jamais! Estava querendo a tua opinião. Sei que devo começar a me movimentar. Aplicar o dinheiro é a primeira coisa, e depois tenho que encontrar a terra específica para comprá-la. O problema que não tenho a mínima idéia de como chegar até lá.

        - Isto não é problema André, falou enérgico, vou com você!



Escrito por Luiz Lago às 23h32
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 

19.

Desta vez eu tinha companhia: Lea!

Corri para ela e a abracei carinhosamente, beijei-lhe a face, enxuguei minhas lágrimas nos seus cabelos. Ela sorria muito, daquele jeito sapeca de quem está aprontando alguma surpresa, mas nada falou. Ficamos de mãos dadas por algum tempo, depois, sorriu mais uma vez, despediu-se de mim, com um leve aceno, desvanecendo-se em seguida. Tentei segurá-la, mas meus braços enlaçaram o ar. Fiquei triste. Sentei-me junto à fonte e pela primeira vez não tomei da sua água.

Acordei com a luz do amanhecer entrando pela varanda do quarto. Levantei e me aproximei da beirada da varanda e a luz intensa do sol daquele novo tempo me cegou por um momento. Ao recobrar a visão, vi um pequeno lagarto olhando para mim atentamente. Como aquela pequena criatura, aparentemente tão frágil, poderia ter sobrevivido ao holocausto? Qual seria o seu alimento? Onde arranjaria água?

Sentei-me e fiquei observando o animalzinho imóvel. Parecia querer falar comigo, me senti meio doido por este pensamento.

         Tentei fazer a introspecção nele. Sabia que era proibido instrospectar animais, só em ocasiões especiais, quando eles nos oferecem perigo, como no caso da serpente. Mas esta não era uma ocasião especial? Sozinho no mundo que já não era o meu, tendo apenas um lagarto como companheiro?

        Ele estava perdido, sem saber para onde ir. Com sede, fome, próximo da morte, talvez. Avaliava-me também, da sua maneira. Estaria esperando que eu morresse para sobreviver?

        Fiz a única coisa que estava ao meu alcance. Com a fivela do meu cinturão, fiz um pequeno corte no meu dedo médio e deixei cair, na boca do lagarto que não se moveu, algumas gotas de meu sangue. Como que sabendo o que estava acontecendo, o bicho bebeu o sangue avidamente. Depois, olhando ao redor, retomou a sua caminhada em busca da sobrevivência.

        Não sei se lhe salvei a vida. Nunca saberia. Havia salvado muitas vidas, e estava colocando a minha vida em risco para salvar mais algumas.

        Como tudo ocorreu tão rápido, a vida anda tão depressa...



Escrito por Luiz Lago às 19h48
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 

18.

À medida que avançava, os restos de civilização eram cada vez mais aparentes. Pedaços de veículos de todos os tipos, utensílios domésticos, o que restou deles, e algumas construções calcinadas pelo fogo com boas estruturas ainda em condições de serem habitadas. Imaginei que aquela região não foi tão afetada quanto a que estava mais próxima do deserto. Escolhi um prédio com dois andares ainda de pé para o meu descanso. Era isolado das demais construções e parecia sólido. Entrei no que deveria ter sido uma oficina, havia restos de maquinários e uma bancada de cimento, além do que me pareceu ser um elevador de automóveis. O grande calor havia retorcido e deformado a maioria das máquinas e ferramentas. Visualizei uma escada ao fundo de concreto, ainda intacta. Subi por ela para o segundo piso, iluminando bem o chão coberto de fuligem. Admirei-me com a solidez da construção do que parecia ser um apartamento. Eram seis peças ao todo, talvez dois quartos, sala, banheiro, cozinha e uma área fechada. A maioria do piso de cerâmica do apartamento estava bom, apenas coberto de pó e fuligem.

Restos de uma geladeira e um fogão identificaram a cozinha e um vazo sanitário de louça, o banheiro. Estas peças estavam com seus azulejos quase intactos, o que me fez concluir que o construtor daquela obra usou um ótimo material e “abusou do cimento”.

Escolhi um dos quartos para passar o resto da noite. Era maior do que o outro e tinha uma varanda para fora, além da janela. Minha visão do exterior era privilegiada. Improvisei uma vassoura com a minha esteira e limpei grande parte do piso, onde coloquei a esteira e os meus pertences. Fiz a minha refeição de costume e tomei água.

Deitei-me na esteira e adormeci quase que imediatamente. Novamente sonhei com o jardim.



Escrito por Luiz Lago às 22h03
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 

17.

 

Respirei fundo e afastei o medo que me acometeu. Retomei o comando de mim mesmo e afastei-me rápido, iluminando bem o chão onde pisava. As formigas eram os primeiros seres vivos que eu via desde que iniciei a minha caminhada pelo deserto inóspito. Ah e vi também a cobra que até agora não sei se era verdadeira ou apenas uma visão. Para registrar tirei uma foto digital para exames posteriores.

Teria que tomar muito mais cuidado. Fiquei imaginando o tipo de veneno que aquelas formigas estranhas injetariam nas picadas. E as bactérias então? Havia me vacinado, e estava prevenido contra a maioria dos vírus e bactérias conhecidos. Minhas roupas de couro eram fortes, as extremidades, mãos e pés bem protegidos. Mesmo assim não poderia vacilar, como saberia o que ia encontrar pela frente? A euforia pelo fim do deserto deu lugar à preocupação com o inusitado. Verifiquei o relógio, perdera tempo naquele campo. A medida que me entranhava nas ruínas, notei que o frio diminuiu. Teria que repensar a minha caminhada do outro dia. Talvez não precisasse caminhar à noite, esta idéia me pareceu boa, considerando os perigos que poderia ter pela frente. Decidi caminhar um pouco mais naquela noite e procurar um lugar bem seguro para descansar. Não queria ter surpresas desagradáveis com formigas ou outros insetos.

 



Escrito por Luiz Lago às 21h38
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

16.

 

Estes pensamentos eram apenas conjeturas. Não tinha como saber o que acontecera de fato. Passei três anos e meio abrigado na mini fortaleza a 10 metros abaixo do solo, e acompanhei os acontecimentos até que todas as transmissões eletrônicas e radiofônicas acabaram. Juntando os dados destas transmissões consegui, com meus companheiros, tirar conclusões a respeito do fim da humanidade, ou de quase sua totalidade, naqueles meses de 2012. Quando finalmente subimos à superfície e fizemos as primeiras excursões de curto alcance, entendemos a real situação em que nos encontrávamos: sozinhos no planeta, pelo menos é assim que imaginávamos até receber aquele pedido de socorro.

Como esperava, as ruínas foram se tornando escombros e já podia visualizar algumas construções que não foram totalmente destruídas. Minha atenção redobrou. Consultei o mapa, a bússola e segui em frente a passos firmes. O chão estava firme, o que me possibilitaria caminhar o dobro no mesmo tempo. Já havia caminhado por duas horas quando me deparei com os primeiros esqueletos. Estavam num descampado. Uma área grande e plana, poderia até ter sido um campo de futebol. Eram muitos, todos agrupados um ao lado do outro em fileiras sobrepostas, e até onde minha lanterna pode iluminar, cobriam quase todo os espaço do campo. Não havia vestígio de roupas. Alguns repousavam sobre macas, outros estavam semicobertos por terra.

Aproximei-me e vi horrorizado que a terra que cobriam alguns esqueletos, parecia se mover. Iluminei bem um daqueles montes e descobri que aquilo que se movia na verdade eram formigas! Milhares delas, como puderam resistir e que perigo poderiam representar para mim?

Aproximei-me com cuidado e examinei bem as formigas. Eram vermelhas e grandes, parecendo formigas cortadeiras. Mas as cabeças eram maiores e as garras também. Mediam em torno de um centímetro e eram fortes e ativas. Sentiram a minha aproximação e se voltaram para mim. Um frio percorreu minha espinha e por um momento minhas pernas não acompanharam o comando do meu cérebro.



Escrito por Luiz Lago às 18h04
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 

15.

 

Voltei para o interior da loja para pegar meus pertences e voltar à minha jornada. Estava frio, e a caminhada me aqueceria. Sentia-me melhor naquela madrugada. Sem dores musculares creio que a comunhão, praticada no mínimo três vezes ao dia, com certeza era a causa da melhora do meu estado geral. Coloquei a mochila e desta vez dispensei o acessório que criei para andar na areia, tipo de raquete de tênis, feito de junco, que me dava mais estabilidade e movimento para caminhar no deserto. O terreno estava mais firme agora, e a tendência era melhorar cada vez que avançasse em direção ao meu objetivo: chegar até o mar!

Outro fator que me animava era a possibilidade de encontrar água. A dúvida era se esta água seria potável ou não. Levava comigo alguns produtos para teste, inclusive um medidor de radiação que estava ligado direto desde que penetrei no deserto. Mais um invento do meu filho mais velho o Junior, um gênio, autodidata (Lea deixou alguma coisa nele quando o ressuscitou, com certeza) criou a maioria das nossas máquinas movidas a energia limpa, o medidor era alimentado através da energia solar.

Com cuidado, fui avançando entre as ruínas que sobraram de uma das maiores regiões metropolitanas do país. Aqui viviam mais de vinte e dois milhões de pessoas, 75% eliminados em questão de menos de dois minutos! Sem deixar nenhum vestígio. Não sobrou nada daquelas pessoas, nem mesmo um fio de cabelo. O restante não deve ter durado mais do que um ou dois anos. Estava preparado para encontrar cadáveres dos que morreram devido à radiação, ou possíveis epidemias virais que foram noticiadas. O homem destruiu-se com tudo o que tinha de letal. A insanidade foi tanta que os arsenais de todos os tipos, de todas as nações do mundo ficaram vazios. O Conselho participara diretamente desta ação demoníaca.



Escrito por Luiz Lago às 19h09
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 

14.

 

Uma luminosidade penetrou o interior da loja, despertando-me da comunhão, uma hora exata havia passado. Olhei para fora e percebi que era a Lua que reinava absoluta na noite fria da ex-cidade deserta.

        Saí para o exterior e maravilhei-me, mais uma vez, com a beleza da criação de DEUS. Impossível conter a emoção diante de um espetáculo daquelas proporções.

        Os escombros e as dunas em volta tornaram-se mar de prata liquida, enquanto as suas sombras formavam negros abismos, crateras insondáveis do mais absoluto nada. É notável como a luz da Lua, quando Cheia, consegue ofuscar o brilho de estrelas, sóis, com brilho mais intenso do que o nosso astro doméstico. Lembrei-me da relatividade do Universo e no equilíbrio divino que esta relatividade proporciona. Como é grandiosa a criação divina.

        Notei também que haveria cada vez mais escombros à minha frente. Isto era bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque estava no caminho certo, segundo os mapas que eu dispunha, além de, segundo estes mesmos mapas, o deserto estava terminando. Ruim porque não tinha idéia do que poderia encontrar pela frente. Desconhecia a possibilidade de sobreviventes nas áreas atingidas, mas nunca se sabe. O homem sempre se saiu muito bem em situações extremas. Teria que ficar mais alerta em meus sentidos desenvolvidos de audição, olfato e visão. O holocausto acontecera a quatro anos. Em nosso abrigo, ouvimos algumas comunicações até pouco mais de um ano depois. Daí para frente só estática em nosso rádio. Até que no mês passado recebemos o pedido de socorro de outro núcleo de sobreviventes – e por incrível que possa parecer, disseram que estavam falando da Cidade da Esperança!



Escrito por Luiz Lago às 18h57
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

13.

Estava na hora da parada obrigatória. Creio que me aproximei daquilo que restou de uma cidade. Estava mais perto agora do meu objetivo. Ainda havia muita areia, mas os restos de edificações calcinadas pelo fogo me proporcionariam um bom abrigo.

As lembranças foram positivas nesta etapa da caminhada. Devo ter superado a marca que estabeleci para andar por hora, em torno de 2 a 3 km, dependendo do terreno. E o mais incrível, me sentia muito bem!

Logo encontrei um abrigo, uma das poucas construções que resistiram à hecatombe. Era um tipo de uma loja com uma laje na parte superior, com duas grandes aberturas, onde imaginei pudesse originalmente existir uma porta e uma janela. Estava vazia, como todas as construções que ficaram de pé e que logo após o desastre, foram saqueadas pelas hordas de sobreviventes contaminados. Eles realmente “limparam tudo” o que viram pela frente. Tirei o pó do que me pareceu ser um balcão de concreto, arrumei minhas coisas e preparei-me para descansar por uma hora. Uma barra de cereal e um gole de água, minha refeição naquela noite fria eram 22:12. Com certeza estava no caminho certo, pensei enquanto me recostava para mais um momento de comunhão. Era assim que encontrava força para seguir adiante.



Escrito por Luiz Lago às 19h03
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

12.

 

Depois que ele foi embora, no dia em que lhe contei sobre as visões, fiquei matutando sobre o que ele me falou, sobre a forma de como levar adiante o projeto. Intensifiquei assim a comunhão, e numa noite tive a visão que deu a partida efetiva no Projeto Cidade da Esperança! Como em todas as outras visões, já estava acostumado com isto, apareceu a TV e a imagem. Desta vez estava em um Banco, na frente de uma pessoa que parecia ser um gerente, apresentando um papel, que depois identifiquei melhor, era um bilhete de loteria. Como não jogo, nem compro bilhetes, nem me liguei quanto aos números ganhadores. Por isto, depois me dei conta, a imagem se repetiu diversas vezes. Só parou quando anotei os números. Então me dei conta que aquela visão me dizia que eu deveria comprar o bilhete e com o dinheiro que ganhasse  tornaria o projeto Cidade da Esperança, real!

Foi isto mesmo que aconteceu. Não sem algum trabalho. O pior foi localizar o bilhete com os números. A Loteria Federal envia os bilhetes para todos os municípios do país e demorei uma semana procurando. Graças a Deus, sempre a Ele, encontrei numa cidade à duas horas de distancia da minha. Mas tive que enfrentar outro problema: o bilhete daquela semana estava reservado por um cliente da casa lotérica e o vendedor só poderia me vender, caso ele desistisse, ou não comparecesse na loja até duas horas antes de serem sorteados os números, isto ocorreria dois dias após. Para não gastar, meu dinheiro era sempre curto, resolvi ficar na cidade até aquela data. Trouxera alguns livros no carro, daí perambulei nas duas noites que se seguiram, pelos bares e restaurantes oferecendo-os. Vendi todo o meu estoque e me arrependi de não ter trazido mais livros.

 

        Por fim chegou o dia e a hora fatídicos. Levei um “chá de cadeira”, mas felizmente, tal cliente não compareceu e adquiri o bilhete sem comentar nada sobre minha pessoa com o vendedor, que já estava meio desconfiado de tamanha insistência.



Escrito por Luiz Lago às 17h54
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

11.

 

Roberto se tornara meu amigo, mais do que isto, um irmão.

Sua carreira alcançara um sucesso muito grande e seu consultório atendia pacientes de todas as partes do mundo. Cirurgião especializado em transplantes, viajava aos quatros cantos do país para operar. Ganhava dinheiro, mas ajudava muitas pessoas também. Como o pai, o saudoso Dr. Hélio, participava como voluntário de diversas organizações de ajuda humanitária.

Foi ele quem me deu a casa onde eu morava na praia. Um dia, apareceu sem avisar na casa de praia e disse:

- André, me acompanha até o cartório da cidade porque não me lembro bem onde fica. E leva teus documentos, que podem ser necessários. Sempre confiei nele, portanto concordei e prontamente o acompanhei. Quando lá chegamos já estava tudo acertado! Ele providenciou sem que eu soubesse a doação da casa para mim. Engendrei um – “não posso aceitar, tal e coisa” – mas ele foi categórico:

- A casa é sua, minha mulher e meu filho concordaram. Não precisamos de mais um imóvel e tenho certeza que papai, que tanto amava este lugar, ficará muito feliz onde ele estiver.

Aceitei comovido, e muito feliz, aquela casa, que tantas recordações me traziam, e que eu cuidava como se fosse minha, passou a ser minha de verdade. Naquela noite, passei longas horas em comunhão, de joelhos agradecendo a Deus aquela dádiva preciosa para a minha vida.



Escrito por Luiz Lago às 18h04
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 

10.

Foram diversas visões no decorrer de alguns meses. Resolvi expor ao Roberto tudo aquilo que vira e anotara. Ele veio me visitar na casa de praia num fim de semana de julho. Estava um friozinho gostoso e passamos a tarde conversando à beira da lareira, na aconchegante sala de estar.

- O que você achou Roberto? Perguntei ansioso.

- Interessante, se eu não te conhecesse e não tivesse presenciado tudo que aconteceu aqui, diria que você é maluco, mas sou forçado a concordar com você: - estas visões são instruções para construir uma cidade, uma vila, é um projeto bem detalhado, materiais, custos, pessoal.

- O que eu devo fazer então? Questionei.

- Meu amigo, o custo desta obra é imenso, não imagino como você poderia arcar com esta enorme despesa, seus livros mal dão para o seu sustento, considerando que está se dedicando exclusivamente a eles. Sorte sua não ter que pagar pensão para os garotos, nisto a Eline está sendo muito legal com você.

- Pudera, o marido dela agora é Juiz Federal, ganha muito bem o nosso ex-delegado Otávio – emendei.

- Ela e as crianças tiveram sorte – completou Roberto.

- Não existe sorte, amigo, é tudo planejado pelo nosso Amigão lá em cima. Faz muito tempo que você sabe disso – observei.

- É verdade – aquiesceu Roberto, e continuou:

- Voltando ao assunto das visões, creio que você saberá como levar adiante o projeto da mesma forma que ele está chegando a você. Através de uma visão que lhe diga como concretizar este sonho. Independentemente do que acontecer, estou junto com você como sempre – finalizou enquanto nos despedíamos.

 



Escrito por Luiz Lago às 19h14
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 

9.

A noite estava mais fria do que o costume, mas também o frio não me incomodou. Encontrei mais força no meu passo, mirei o alvo, uma duna distante que me encobria a visão e inicie a jornada. A Lua estava brilhante, pintando de prata o meu caminho.

Cidade da Esperança! Um sonho que se tornou realidade!

Um dia, logo depois de publicar a primeira edição de Loucura e Verdade, estava sentado na areia, frente ao mar, em comunhão, quando tive a primeira visão. Vi, como se numa tela de TV, um tipo de vídeo, mostrando uma cidade sendo construída. Só que eu estava na praia, sentado na areia, não tinha TV nenhuma em minha frente, muito menos eletricidade. Tudo muito rápido, como quando fazemos um DVD andar para frente com rapidez, mantendo a imagem. Em poucos instantes estava pronta. Rústica, com diversas casinhas de tijolo à vista, alguns prédios que identifiquei como uma escola, um hospital, uma igreja, um mercado. Uma cidade do interior, mas extremamente limpa e organizada, com sua área rural, onde podia ver plantações e animais sendo criados. Havia também um grande muro em torno da cidade e um portão de ferro que a princípio não consegui ultrapassar. Esta foi a primeira visão, a visão geral. Depois aconteceram outras, específicas que me levaram a conceber a idéia que deveria colocar todas as visões no papel, pois eram ordens divinas, um sonho que Deus estava me dando para realizar. No arco da entrada da cidade li: Cidade da Esperança e este foi o nome que dei ao projeto.



Escrito por Luiz Lago às 18h52
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

8.

 

        O sol começava a declinar rumo ao horizonte. Terminei de anotar meu diário. Lápis e papel, saudade do note book, pelo menos ia deixar meus registros e detalhes da viagem para um outro maluco como eu, caso alguma fatalidade me acontecesse.

Recolhi meus pertences e preparei-me para uma nova noite de caminhada. Antes fiz uma pequena refeição. Cereais, proteína, um pouco de água. Pensei em quanto havia me dedicado aos jejuns e controle das atividades corporais, e fiquei imaginando se esse treinamento não seria responsável pela minha resistência. Ou seria algo mais?

Tentei fazer uma auto introspecção e não consegui nenhum resultado. Em mim havia apenas aquele brilho intenso ofuscando a minha visão, como o clarão de um flash.

Percorri mentalmente meus órgãos, pesquisando possíveis danos causados pelo jejum ou falta d’água, mas, aparentemente tudo estava funcionando bem. Por incrível que possa parecer, na minha situação, as minhas necessidades fisiológicas permaneciam inalteradas. Daí me ocorreu o insólito:

Com certeza já morrera, pensei. Talvez até tivesse morrido de outra forma e não me lembrava. Poderia ter morrido ao sair da Cidade da Esperança, ou mesmo na caminhada pelo deserto.

Sim, esta seria a probabilidade mais lógica. Mas desde quando DEUS usa a lógica nas suas conjecturas infinitas?

Para ELE não existe a lógica do homem. DEUS é a total falta de lógica, dizia Lea.”A Palavra de DEUS é loucura para os homens”.

Afastei este pensamento, precisava ser forte, e alcançar o meu objetivo. Iniciei a minha caminhada. Para me dar força, a lembrança de outras vitórias!



Escrito por Luiz Lago às 18h06
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

 

7.

        Pensei novamente nas visões. Minha vida estava ligada a elas desde muito tempo. Foi por causa delas que me encontrava ali. Como eliminar de minha mente estes pensamentos e as dúvidas? Por certo esta atividade mental estava atrapalhando a comunhão fundamental para o sucesso de meu plano. Não acreditava ser possível...

        O calor ainda estava intenso, mas não mais molestava meu corpo débil. As dores nos ossos aumentaram, mas não perturbavam meu espírito.

Por incrível que pareça, considerando meu estado lastimável, uma sensação de paz intensa tomou conta de mim. Deixei que as lembranças fluíssem.

        Depois de todos aqueles acontecimentos, da partida de Lea, consegui publicar o livro, com ajuda de amigos e alguns empresários que se interessaram pelas causas relacionadas com os Manuscritos. Nenhuma editora quis publicar, afirmando que tinha um apelo forte de teoria da conspiração. Publiquei a segunda, terceira, quarta, enfim, diversas edições. Vendia os livros praticamente de porta em porta, e pela Internet, através de sites de relacionamento. Reinvestia o que ganhava em mais livros, e cheguei a publicar quase cem mil exemplares, marca razoável para um escritor independente. Cheguei a ser sondado por algumas editoras quando as catástrofes começaram a acontecer, mas foi tudo muito rápido e, nem livros nem editoras adiantariam mais.

        Em todos aqueles anos, cinco ao todo, me aprofundei nos exercícios de comunhão, e alcancei níveis fantásticos, mas não consegui entrar em contato com Lea, minha grande esperança neste intento. Cada palavra dela foi confirmada por mim e os detalhes dos Manuscritos foram ficando cada vez mais claros. Senti previamente cada cataclismo natural ou através da mão humana que aconteceram. Até que toda a tecnologia fosse banida da face da Terra, chorei pelos bilhões de almas que foram aniquiladas na grande tribulação. Tudo aconteceu como o previsto por Lea e o que tentei alertar através do livro. O mundo que conheci não existia mais, estávamos na idade da pedra novamente. Consegui salvar meus filhos, minha ex-mulher e o marido, e alguns amigos antigos e novos que acreditaram em mim. Ao todo formamos uma colônia de quatrocentos e setenta sobreviventes, que deixei a salvo na nossa mini-fortaleza, construída com as economias de cada um e ajuda de voluntários do mundo todo. Era a Cidade da Esperança...



Escrito por Luiz Lago às 17h54
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

6.

        A posição em que me colocara deu-me cãibra no braço e ao virar-me, acordei. Raios de sol penetravam pela entrada da gruta, eram quase 17 horas, meu condicionamento físico já quase dispensava o despertador.   

Algo tocou minha perna. Levantei a cabeça com dificuldade e fiquei paralisado de medo. Uma terrível serpente do deserto se enroscava para o bote. A picada deste réptil produzia uma morte rápida, mas dolorosa. Mas e se não fosse aquilo que aparentava. Podia ser uma visão, um aviso? Como saber? Seria este o meu fim? Não mexia um músculo, mal respirava. Preparei-me para introspectá-la. A serpente permaneceu em posição de defesa por um tempo que me pareceu interminável. Num piscar de olhos, como surgiu, desapareceu.

        Estaria sonhando ainda? Por certo que não. As dores estavam presentes. Minha visão teria me enganado mais uma vez? Quando me preparei para instrospectar à serpente, ativei minhas memórias inconscientes e lembrei do sonho. Seria esta a forma que DEUS estava usando para me alimentar e saciar a sede e me manter vivo e forte? Poderia a comunhão chegar a este ponto? Saciar as necessidades materiais através do SEU ESPÍRITO em mim? As necessidades eram materiais, corporais, como poderiam ser saciadas num outro plano, o espiritual, o efêmero? Dúvidas e mais dúvidas, parece que o meu sacrifício seria em vão, um novelo de lã embolado...



Escrito por Luiz Lago às 19h05
[] [envie esta mensagem
] []


 

 
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]