Blog Riacho Mágico
   
 
   



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143.

 

        Roberto e eu trocamos olhares desconfiados. Podia ser armação do Conselho, mas não era. Tomei a iniciativa da conversa.

        - Senhor Antenor, é este o seu nome?

        - Sim senhor, meu nome é Antenor Ribeiro Caldas, ao seu dispor.

        - Parece-nos que o senhor esperava a nossa visita?

        - Sim, esperava sim, foi meu filho Josué quem me avisou que os senhores vinham me buscar. Falou singelo, a verdade explícita em seus olhos simplórios. Roberto não se conteve e interpelou:

        - Ele lhe telefonou, escreveu, mando um e-mail, coisa que o valha? Disse um pouco exaltado.

        - Não senhor, hehehe, sonhei com ele, e no sonho ele me contou a respeito de vocês. Respondeu ele sorrindo aquele sorriso puro, desprovido de maldade, como se fosse a coisa mais normal do mundo o que ele acabara de falar.

        Novamente o olhar de Roberto encontrou o meu e nos comunicamos mentalmente.

        - [Estou sentindo que ele está falando a verdade.] Comentou Roberto.

        - [Eu também.] Respondi.

        - [Acho que devemos ligar para a casa. Seria bom sabermos de Josué como foi que isto aconteceu.] Aconselhou Roberto.

        Aceitei o conselho, pedi licença ao seu Antenor e voltei ao jardim na entrada da casa para poder falar à vontade.

        Pelo celular, liguei para Madalena, contei-lhe o que acontecera e pedi para falar com Josué. Em dois minutos ele estava ao telefone.

        - Estou aqui Comandante, está tudo bem com meu pai?

        - Sim Josué, bem até demais. Imagine que ele sabia que nós viríamos e disse que foi você quem o avisou através de um sonho. Você pode me dizer o que aconteceu de fato?

        Houve um pequeno silêncio do outro lado da linha e depois ele respondeu demonstrando surpresa.

        - Caramba, não imaginei que meus sonhos tivessem receptividade. Desde a primeira vez em que mentalizei meu pai antes de dormir, os meus sonhos com ele, pareciam muito reais. Parecia que ele me via, e muitas vezes interagia comigo. Foi ele quem me disse onde morava em detalhes. Tomou fôlego e continuou.



Escrito por Luiz Lago às 23h42
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142.

 

        Aproveitando o finzinho da claridade do dia, nos reunimos em mutirão para ajeitar o avarandado e limpar as casas para dormirmos. Para nossa surpresa, encontramos na beira da praia pequenas lagoas chamadas de lagomar cheias de camarões que foram jogados ali pelos vagalhões. Pegamos o que tínhamos para catar os crustáceos e o nosso jantar foi “divino” naquela noite. Guardamos as sobras para salgar e levar ao navio no outro dia. Entrei em contato mental com Kimie.

        - [Vocês estão bem?] perguntei.

        - [Graças a Deus, e vocês?] ela respondeu.

        - [Bem graças a Ele também. O dia foi muito cansativo, você está melhor do ferimento na cabeça? E o braço, ainda dói.] Continuei.

        - [Não fica preocupado comigo comandante. Estou bem. O braço anda dói um pouco, mas amanhã tenho certeza que você vai deixar ele novinho em folha. Você tem muito poder André. Porque tem receio de usá-lo.]

        Aquela pergunta me pegou desprevenido porque ela, de repente, mudou o rumo da conversa. Lembrei de Lea. Era o seu jeito de entrar no assunto que lhe interessava.

        Tinha que para e pensar um pouco antes de responder. Afinal, estava iniciando uma relação e precisava ser muito honesto e transparente. Minha experiência em relacionamentos me deu a convicção que um relacionamento, seja do tipo que for, amizade, amor, sociedade, trabalho, só prospera se for fundamentado na absoluta verdade. As pessoas envolvidas devem se apresentar como verdadeiramente são. De outra forma, mais adiante, a vida e o convívio, mostrará o que ela quis esconder. Daí, no meu caso, embora Kimie soubesse muito a respeito do meu ser espiritual, quando nos introjetamos mutuamente, desconhecia quase que totalmente o ser mental, a minha matéria.

        Esperando que ela não se decepcionasse, comecei a lhe falar a respeito de mim, um pouco da minha historia de vida, dos meus fracassos, até alcançar o ser vitorioso que me tornei graças a Jesus Cristo. Ela ouvia sem dizer nada.      



Escrito por Luiz Lago às 20h29
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141.

 

        -[Tudo é possível para quem crê em Deus!] Ela respondeu e continuou a falar como se estivesse me chamando a atenção.

        -[Você deveria estar fazendo o mesmo aí na praia com as meninas. Por favor, vamos nos unir em oração.]

        As palavras de Kimie provocaram uma reação imediata em meu cérebro. Voltei correndo para a casa principal e pedi que todas se reunissem comigo na praia. Rapidamente estávamos todos de mão dadas, ajoelhados num grande círculo, a despeito do vento e da chuva intensa entrando em comunhão com o Todo Poderoso.

        Não era fácil entrar em comunhão nas situações extremas como aquela. Diferente do que comumente chamamos de meditação, a comunhão é um exercício de fé. A certeza de que o Divino Espírito Santo habita em nosso ser, e a convicção que somos seres espirituais, mais do que materiais, e, portanto, podermos através desta ligação, comungarmos com o Todo Poderoso e interferirmos nas diversas situações relacionadas com a matéria que nos envolve. Naquele momento nossa fé estava sendo testada.

        Senti a vibração energética tomar conta do meu ser, sinal que o grupo conseguira entrar em comunhão. Em seguida, com a união de todos os espíritos, sentimos a união do nosso círculo com o círculo que estava formado no navio. E de imediato o turbilhão da tempestade assolou os nossos corpos entregues ao comando divino.

        Os dois círculos saem da imobilidade e começam a girar com uma rapidez incrível. E isto apenas com a força da nossa mente em comunhão. Giravam em sentido contrário à força dos ventos e assim, conseguimos neutralizar o vento forte e depois de alguns minutos que pareceram horas, os ventos cessaram e a tempestade foi se afastando aos poucos. Todos caímos exaustos na fina areia da praia. Uma nesga de céu apareceu deixando ver os últimos raios de sol que mergulhava no mar, refrescando-se de um dia quente e cansativo, prenúncio de um bom tempo para o outro dia.  

 



Escrito por Luiz Lago às 22h11
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140.

 

        A tempestade veio com tudo! O céu ficou negro como a noite e eram apenas cinco e meia da tarde.

        A velocidade do vento devia ser superior aos cem quilômetros por hora. Em segundos, o avarandado recém reformado da casa maior, foi pelos ares. Arrependi-me de ter tido a idéia de trazer as meninas para a praia, talvez estivessem mais protegidas no navio. Mas como poderia prever a tempestade? A minha culpa era maior porque eu podia sim prever a tempestade.

O desenvolvimento mental resultante da prática da comunhão e introspecção permitia que sentíssemos acontecimentos futuros. As visões que os mestres tinham, eram, na verdade, previsões. No entanto podíamos bloquear este sentido e era o que eu fazia. Nunca gostei de saber o futuro. Minha vida era processada segundo a segundo, minuto a minuto, dia a dia. Teria que repensar esta decisão. Agora muitas vidas estavam em perigo pela minha intransigência em não querer saber os acontecimentos do futuro.

Pensava nisto quando um ruído muito forte chamou minha atenção. Era a corrente da âncora do navio que havíamos enterrado na praia que, de repente foi retesada. Isto queria dizer que o navio havia se movimentado! Fiquei apavorado com a possibilidade das ancoras não conseguirem segurar o navio. Corri até onde estava a enorme peça enterrada e notei que a força do mar conseguira movê-la dez metros em direção ao mar.

Tentei contato mental com Julia, mas foi Kimie quem respondeu à minha mensagem telepática.

- [Sou eu André, Kimie. Como estão as coisas por aí?]

- [Você tem que repousar Kimie, onde está Julia?]

- [Como posso repousar se o “mundo está caindo em nossas cabeças?”] Senti o tom enérgico das suas palavras na minha mente.

Insisti com ela sobre Julia.

        - [Responde meu anjo, onde está Julia?]

        - [Está reunida com as meninas em comunhão. Ela disse que temos que parar esta tempestade ou todos morreremos.]

        - [Parar a tempestade? Como isto é possível menina.]



Escrito por Luiz Lago às 01h10
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139.

 

        Josué nos surpreendeu mais uma vez. Ele sabia onde seu pai estava! E nos tranqüilizou quanto ao seu caráter.

        - Meu pai encontrou o seu caminho comandante André, falou.

        - Como você pode saber, se não o vê a mais de cinco anos? Interpelei-o.

        - Tenho sonhos com ele. Sei que está bem, e que estabilizou a sua vida. Sei inclusive onde mora. Os senhores podem comprovar se forem até lá. Finalizou.

        Percebemos que ele estava convicto naquilo que afirmara. Sabíamos que os seus poderes eram enormes, mas não imaginávamos que eram tão extensos. Alguns de nós, podíamos, com bastante esforço, localizar uma pessoa, mas sem muita precisão. No caso de Josué ele disse o estado, a cidade, a rua e o número da casa onde morava o pai dele.

        Fizemos uma reunião para decidir. Houve unanimidade na decisão e eu e Roberto, fomos até o endereço buscar o senhor Antenor, pai de Josué. Ele não poderia ser visto conosco por causa da sua iminente missão. O Conselho poderia desconfiar de algo.

        Viajamos de jatinho e depois de automóvel alugado até uma pequena cidade à beira mar no sudeste do país. Um dia de viagem e estávamos em frente á casa que Josué havia dito que morava o seu pai. A casa era simples, mas o jardim era exuberante, havia uma placa dizendo: Vendo Plantas.

        Batemos palmas e um senhor grisalho, com uma grande barba branca nos atendeu. Estava vestido com simplicidade: bermuda branca, camisa azul claro, pés descalços. Nos recebeu com um sorriso, e mesmo sem que disséssemos o motivo da nossa visita nos mandou entrar. A casa era pequena, com poucos móveis, mas limpa e bem organizada. Uma sala conjugada com a cozinha, talvez um quarto e um banheiro era tudo o que podíamos ver. Sentimos um cheiro de café feito na hora e de imediato veio o convite para sentarmo-nos à mesa e tomar um café. Parecei que Antenor sabia que ia ser visitado. Acontece que de fato ele sabia!



Escrito por Luiz Lago às 20h09
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138.

 

        Josué conseguiu um pequeno quarto com um banheiro, nos fundos da casa deu uma senhora da sua igreja, por um preço que podia pagar. Limpava o pátio nos fins de semana e passeava com os cães da senhora, dois pastores alemães. Em retribuição ela o convidava para cear todos os dias, antes dele ir para o cursinho, e muitas vezes esta era a única refeição descente que ele fazia durante todo o dia.

        No início do ano, foi aprovado em segundo lugar, no curso de engenharia química da universidade federal, única instituição para onde prestou concurso, visto que não poderia pagar uma faculdade particular. Conseguiu um estágio numa indústria de tintas e nos fins de semana fazia bicos para aumentar os seus rendimentos. Econômico, em dois anos deu entrada num “kitinet”. Enfim tinha a sua própria casa. Formou-se e foi o orador da turma. Os seus padrinhos de formatura foram a senhora que o acolhera e o Pastor da sua igreja. Foram quatro anos de muita luta e noites mal dormidas compensadas pelo diploma de nível superior. Deixara de ser estudante e agora estava desempregado!

        Foi quando viu o nosso anúncio de recrutamento num folheto da sua igreja. A distância de onde morava, quase o fez desistir, mas alguma coisa lhe dizia no seu coração que deveria tentar aquela colocação. Com a indenização que recebeu da industria de tintas, pagou uns meses adiantados do financiamento do seu apartamentinho e veio até nós. Madalena ficou encantada com ele e logo na primeira entrevista e sua história também foi interessante. Precisávamos de pessoas com poucos laços familiares para trabalhar na parte secreta do nosso projeto.

        Também não foi surpresa para ela quando seu dom afluiu.

        O que surpreendeu madalena foi o pedido que fez quando aceitou a missão. Depois de tantos anos, como poderia encontrar o pai? E se ele não passasse nos testes para ser morador da cidadela?



Escrito por Luiz Lago às 23h44
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137.

 

        Josué aceitou ser o nosso espião junto ao Conselho. Mas fez um pedido: Queria trazer seu pai para morar na cidadela.

Sua história de vida era muito interessante e triste também.

Havia perdido a mãe com câncer muito pequeno e fora criado pelo pai, um homem inteligente e habilidoso, mas que não gostava de criar raízes, viviam mudando, cidade em cidade, estado em estado. Além disto não se firmava com nenhuma mulher. Não conseguia esquecer seu único e verdadeiro amor, a mãe de Josué. O menino viveu assim, com muitas “madrastas”, em muitos lugares. Seu estudo foi intermitente, mas conseguiu completar o segundo grau com dezoito anos. Foi quando rompeu com o pai.

        Eles moravam no sul do país. Josué conseguira um emprego e estava estudando à noite para entrar na faculdade de engenharia química, seu grande sonho. Uma noite chegou em casa e encontrou as malas arrumadas. Seu pai lhe comunicou que iam mudar novamente. Ele se cansara daquele lugar, era muito frio, não tinha muitas oportunidades de trabalho, e a namorada o havia abandonado. Era claro para Josué que este era o motivo principal da mudança. Sempre que seu pai terminava com uma namorada, pegava a estrada para outro lugar. Desta vez, o rapaz não aceitou os argumentos do pai. Sem discutir, porque sempre fora de temperamento tranqüilo, pegou a sua mala e foi para a casa de um colega de trabalho. O pai, ainda o tentou dissuadir, procurou-o na casa do colega, prometeu que seria a última vez que se mudavam, mas ele estava convicto que aquela era uma decisão importante e positiva para a sua vida e não aceitou. Nem as lágrimas de seu pai conseguiram demovê-lo da idéia de não partir com ele.

Depois daquele dia nunca mais viu o pai.

 



Escrito por Luiz Lago às 18h43
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136.

 

        Num instante segurei forte o seu pulso e tomei impulso de volta para cima. Ela não ofereceu nenhuma resistência, estava desacordada e ferida!

Quando cheguei à superfície, um bote com três defensoras assustadas, chacoalhava no turbilhão em que se transformara o mar. Colocamos Kimie no bote e a conduzimos para o navio. Lá ela seria mais bem atendida. Com dificuldade iniciei o procedimento de primeiros socorros para afogados e nem me passou pela cabeça que meus lábios tocavam os seus pela primeira vez. As ondas dificultavam o procedimento e o meu cérebro calculava o tempo que ela poderia estar desacordada, para saber quanto tempo ainda tinha para ressuscitá-la. Ainda estava em comunhão, estava calmo e seguro do que estava fazendo.

Chegamos ao navio e quando a coloquei no meu ombro para subir até o convés senti que ela regurgitou a água que havia ingerido e começou a tossir, recobrando a respiração. Todos ficamos aliviados e agradecemos a Deus por aquela bênção.

Julia preparou a pequena sala onde havia ficado para receber Kimie e ajudou-me a examiná-la. Ela estava com uma luxação no braço direito e um pequeno corte na lateral da cabeça. Julia fez o curativo e improvisei uma tipóia para imobilizar o braço machucado. Kimie estava tremendo de frio, preparamos uma bebida quente e a cobrimos para evitar um resfriado. Ela me agradeceu por ter salvado a sua vida, e disse-lhe brincando que a beijara diversas vezes. Todos rimos e agradecemos novamente ao Criador por ter nos amparado naquela hora. Em particular agradeci por não ter me separado tão prematuramente da minha menina.

        Acontece que eu não poderia ficar ali parado porque a tempestade estava cada vez mais perto. Tinha que soltar a outra âncora, mesmo que fosse ali mesmo. Foi o que eu fiz e voltei para a praia. Levei a empilhadeira para o local mais protegido possível e revisei as proteções das portas e janelas e fiquei esperando o céu desabar.



Escrito por Luiz Lago às 19h09
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135.

 

        Tudo aconteceu numa fração de segundos. Num instante Kimie fazia o mesmo movimento anterior para alcançar a outra âncora e em outro estava caindo na água.

        Vendo seu corpo caindo, tentei lembrar do que ocorrera. Uma lufada de vento a desequilibrara e seu corpo bateu no casco do navio. A batida devia ter sido forte o suficiente para que ela largasse a corda. Este pensamento levou menos de cinco segundos e logo eu me atirei na água fria e agitada, e comecei a nadar em direção ao navio, na tentativa de alcançar o ponto onde Kimie havia caído. O mar era fundo ali e a cada braçada que eu dava, levantava a cabeça para ver se via a minha menina. Mas ela não aparecia na superfície. Concentrei todas as minhas forças até que cheguei mais ou menos no lugar onde ela caiu. Não havia quase iluminação por causa da tempestade e o respingo das ondas batendo no casco ofuscavam mais ainda a minha visão já debilitada.

        Nestes momentos, mesmo os mais preparados espiritualmente como eu, reconhecem o quanto são fracos e incapazes e o quanto dependem de Deus para viver as nossas vidas. Mas aqueles que em espírito e verdade se posicionam ao lado do Senhor Jesus se fortalecem nestes momentos, porque são fortalecidos por Ele, o Salvador. “Quando sou fraco aí é sou forte porque? Tudo posso naquele que me fortalece”.  Com este versículo em meu pensamento, me entreguei à comunhão de uma forma que nunca antes havia experimentado. Minha sensibilidade aumentou tanto que podia sentir cada borbulha que se formava na água revolta, percebia o movimento de cada peixinho, ou qualquer outro ser vivo que naquele momento estava próximo de mim. Meu corpo brilhava, tamanho era energia espiritual que eu agregara. Em segundos pude sentir onde estava Kimie e mergulhei em direção a ela nadando vigorosamente. Não precisaria nem abrir os olhos, porque, a sua presença era tangível ao meu coração.



Escrito por Luiz Lago às 20h30
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133.

 

        - Não. Afirmou ela calmamente, saboreado o suspense e continuou:

- Pensei em outra pessoa para esta missão.

        - Quem? Perguntamos todos novamente.

        - Josué, disse Madalena com um leve sorriso no canto da boca, do jeito que uma exímia jogadora faz quando tem um trunfo na “manga”.

- De novo todos falaram ao mesmo tempo:

- JOSUÉ?

- Ele nem faz parte do grupo de comando! Afirmei um pouco exaltado.

- Por isto mesmo, o Conselho não o conhece. Não sabe do seu treinamento, pensa apenas que é um empregado nosso, meu assistente, o que lhe confere uma maior importância estratégica. Entenderam? Falou Madalena, ainda naquele tom de quem sabe do que está falando.

Fiz uma pequena introspecção para controlar meu ego e analisar melhor a idéia. Os fundamentos estavam corretos, a proposta ousada, mas interessante, poderia dar certo. Externei as minhas conclusões aos outros membros do grupo.

Foi Alberto quem levantou a questão mais importante:

- E se Josué não aceitar, afinal o risco é muito grande. Disse Alberto.

- Tenho certeza que ele vai aceitar. Respondeu Madalena.

Fiquei imaginando se ela já teria falado com ele. Não me atrevi a introspectá-la, com certeza saberia que eu tentava descobrir a verdade e isto prejudicaria o nosso relacionamento. Preferi assumir a responsabilidade do meu comando e determinei que Josué fosse chamado para tomar ciência do assunto e dizer se aceitava ou não a missão. Estávamos na sala de comando da mini fortaleza na gruta. Era um “bunker” impenetrável, isolado de tudo, onde nos reuníamos para tomar as decisões importantes e secretas.

Josué levou alguns minutos para chegar até nós. Era a primeira vez que ele entrava naquela sala, mas não se surpreendeu. Parecia que já sabia de tudo.

        Quando entrou no recinto introspectei-o. Para alivio meu, ele não sabia nada do que estava acontecendo. Depois de tomar ciência de tudo, deu a sua resposta.



Escrito por Luiz Lago às 20h19
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132.

 

        Praticamente todos os dias, descobríamos alguém do Conselho tentando se infiltrar, seja como hóspede do hotel ou fornecedor, já que o recrutamento de trabalhadores fora concluído.  Com a ajuda de Josué na pré-seleção a situação melhorou, mas Alberto e eu sabíamos que mais cedo ou mais tarde eles iam conseguir.

        Ficamos imaginando quais seriam os seus objetivos. Pensamos em diversas hipóteses, e a que ganhou mais força, foi de que eles já sabiam o que estávamos fazendo e desejavam nos tomar a Cidadela para abrigarem os seus asseclas. O Conselho sabia quem éramos, conheciam a mim e ao Roberto, agora também sabiam de Madalena, Alberto e até Carolino e os Pescadores. Tínhamos que saber mais a respeito dos seus verdadeiros interesses em relação a Cidadela. Foi Madalena quem deu a idéia:

        - E se infiltrássemos uma pessoa nossa na organização deles? Perguntou.

        - Um agente duplo? Questionou Carolino, mais familiarizado com espionagem.

        - Sim, respondeu Madalena, e continuou, - podemos deixar que uma pessoa nossa, seja “recrutado” por eles para ser um espião entre nós. O que eles não podem saber que esta pessoa está trabalhando para nós. Permitimos que ele diga algum, digamos, “segredo”, não muito secreto, enquanto ele levanta para nós qual a verdadeira intenção destes bandidos! Finalizou ela.

        O “plano” me pareceu inconsistente e perigoso, mas deixei que fosse discutido pelos demais para dar a minha opinião.

        Carolino achava uma boa idéia, Alberto ficou entusiasmado, junto com Madalena eram três votos, Roberto observou que deveríamos pensar mais, só faltava a minha posição.

        - Creio que vocês estão subestimando o Conselho. Comecei a falar e continuei:

        - Nós sabemos o quanto eles são perigosos. Acham que eles não vão desconfiar depois de serem repelidos por mais de um ano?

Vamos arriscar a vida de um de nós, isto é que vamos fazer.

        Madalena me interrompeu:

        - Não pensei em nenhum de nós para esta missão. Falou.

        Todos, uníssonos, falamos: NÃO?



Escrito por Luiz Lago às 17h32
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131.

 

        O nome dele era Josué e o seu poder era grandioso. Chegamos a ficar preocupados com a possibilidade de ser um agente do Conselho infiltrado. Mas os testes feitos por Madalena nos tranqüilizaram. O poder estava latente, imaculado, ele não sabia do dom que tinha. Começamos a treiná-lo separado dos outros, e devagar, para não intimidá-lo. Mesmo assim ele foi rápido. Em pouco mais de um mês estava lendo e falando à mente com desenvoltura. Desenvolveu também a introspecção e a comunhão e daí por diante andou sozinho. Reintegrado ao grupo, passou a liderá-lo e foi melhor professor do que nós para os seus companheiros. Em seis meses tínhamos um grupo de segurança tão bom como os treinados pelos mestres Pescadores.

        Foi com dois mestres Pescadores, que os nossos rapazes fizeram uma viagem de um mês pelo mundo, sendo testados nas mais duras provas. Quando voltaram da viagem, totalmente aprovados, foram reintegrados aos seus antigos cargos como se nada houvesse acontecido. Sentimo-nos mais protegidos então.

        Josué, no entanto, pela sua capacidade acima do normal, foi promovido a assistente da Madalena. Ele faria a pré-seleção, tarefa que era dividida entre Carolino e Alberto. Três anos haviam passado num piscar de olhos. O Hotel RECRIA começou a dar lucros depois de um ano de funcionamento. As obras na gruta estavam indo muito bem e já não precisávamos garimpar para pagar as nossas contas, visto que algumas invenções de nossos cientistas foram patenteadas e vendidas para empresas de diversos continentes. É claro que nos beneficiávamos com isto porque os nossos protótipos eram aperfeiçoados e os recebíamos sempre melhorados. Conseguimos a façanha de ter quatro equipamentos reserva para cada componente, uma folga considerável considerando o tempo que dispúnhamos.

        O grande problema era o Conselho!



Escrito por Luiz Lago às 22h49
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130.

 

        -[O que o senhor acha de usarmos a empilhadeira?] Perguntou-me Chiang timidamente.

        A solução surgiu instantânea em minha mente!

        Poderia ser arriscado, mas valeria a pena tentar!

        O plano era o seguinte:

        Amarraríamos uma corda forte na empilhadeira posicionada na praia em local onde tivesse melhor tração. A outra ponta seria amarrada à âncora antes de baixá-la. A medida que fôssemos descendo a âncora, iríamos puxando com a empilhadeira e com a ajuda das meninas maiores, como um cabo de guerra, para que ela chegasse o mais perto possível da arrebentação, onde a própria movimentação das ondas ia enterrá-la. Se desse certo faríamos o mesmo com a outra âncora. Estabelecido o plano começamos a nos movimentar. Reuni-me com as lideranças para decidir qual grupo ia até o navio colocar o nosso plano em prática. Kimie se apresentou como voluntária para amarrar a corda na âncora. Um arrepio passou pela minha espinha, o que não era um bom sinal. Tentei demovê-la, mas não adiantou, ela foi taxativa. Decidimos que ela, junto com cinco defensoras de dezessete anos, do pelotão de Carol, iam voltar ao o navio. Em cinco minutos, repassadas as instruções, elas estavam embarcadas, enfrentando a arrebentação com ondas de até um metro e meio.

        Com sorte, chegaram ao navio rapidamente, onde Julia as estava esperando. Logo a colocaram ciente do nosso plano, o que ela achou muito bom, pois tinha os mesmos temores que nós. Em menos de dez minutos avistei Kimie no convés indicando por gestos combinados que ia dar início ao plano.

        Foram os mais longos cinco minutos da minha vida!

Ela ficou do lado de fora do convés, protegida por uma corda amarrada em um colete especial para este tipo de trabalho, que era segura pelas cinco defensoras. A corda grossa estava em suas mãos. Elas foram baixando Kimie até que ela ficasse na altura da âncora. Meu coração parou de bater!



Escrito por Luiz Lago às 19h57
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129.

 

        Reunimos todo o material que podíamos usar na proteção das portas e janelas que improvisamos nas casinhas.

        Eu estava admirado com a habilidade e o empenho daquelas meninas. Como um exército de formiguinhas, elas trabalhavam organizadas e com perfeição. A comandante de cada pelotão dava as ordens mentalmente e podíamos ouvir apenas o som dos seus esforços superiores às suas capacidades. Kimie coordenava os trabalhos como uma guerreira. Peguei-me analisando o seu belo corpo e me censurei, encabulado. O amor que eu sentia era indescritível, incondicional, me rejuvenescia e eu desejava que nunca acabasse de sentir aquelas ondas de felicidade em meu coração. Parece que este pensamento foi sentido por Kimie que, virando para mim, fez com os polegares e indicadores das mãos um sinal de coração. Ambos sorrimos, e atirei um beijo para ela na palma da minha mão.

        Finalizamos este trabalho, fizemos um lanche rápido e reunimo-nos para avaliar o trabalho realizado e programarmos o próximo passo. Foi quando Carol levantou uma questão muito importante.

        Ela lembrou que foi uma tempestade como aquela que havia jogado o navio naquela praia fazendo com que encalhasse. Se esta fosse da mesma intensidade ou maior, poderia afundar o navio de uma vez por todas. As suas palavras me arrepiaram, o que era para mim, era um sinal de possibilidade! Devíamos analisar a situação em comunhão. O que poderíamos fazer para que o navio não fosse levado de volta ao fundo da enseada e afundasse?

        Foi Kimie quem levantou a questão que devia solucionar o problema. Ainda em comunhão, enviou à minha mente uma pergunta:

        -[Você sabe me dizer se o navio está ancorado?]

        Âncora, sim, era disto que o navio precisava para não ser levado pelo mar! Olhei para o navio em nossa frente e lá estavam elas, duas enormes âncoras içadas em seus lugares. Teríamos que baixá-las para segurar melhor a embarcação. O ideal seria trazê-las até a praia, mas como fazer isto? Pensei.



Escrito por Luiz Lago às 19h52
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128.

 

        O dia amanheceu nebuloso. Ventara muito do lado sul naquela noite. Quase não dormi. Ainda sentia as maravilhosas vibrações espirituais em meu corpo. As lembranças e similitudes do que acontecera entre Lea e eu naquela nossa única noite de amor, eram inevitáveis. A diferença foi de que não houve um contato material de fato. Apenas ficamos de mãos dadas.

        Kimie, por outro lado, dormiu a noite inteira, abraçada em mim. Seu lindo rosto esboçava uma paz divina e um leve sorriso em seus lábios finos e rosados, demonstrava o quanto estava feliz.

        O mar estava agitado e ondas que eu nunca vira chegavam até a praia bravias. Tomamos o café da manhã rápido e nos concentramos na restauração da terceira e última casa. Elas eram semelhantes em estrutura e tamanho. Uma sala conjugada com cozinha, três quartos e um banheiro. A terceira era um pouco maior. Tinha quatro quartos. Não havia água nem nos banheiros nem no que restou das pias da cozinha. Em todas havia um avarandado na frente, que também restauramos, onde serviríamos as refeições. Ao todo teríamos treze peças fechadas onde deveríamos acomodar o maior número de crianças, as mais novinhas, porque as maiores ficariam nas barracas que tínhamos em número mais que suficiente. Nas três salas poderíamos colocar quatro triliches e nos quartos apenas dois em cada. As bem pequenas dormiriam duas em cada cama, eram vinte em idades de quatro a sete anos. Com esta arrumação, conseguimos dormitório para cento e seis meninas.

        A restauração que fizemos nas casas, como já falei, foi superficial. Apenas tiramos telhas e madeiras das que estavam em pior estado e colocamos nas que ao meu ver, apresentavam uma estrutura melhor. Pelo visto a nossa reforma seria testada em breve! Uma tempestade “das grandes” se aproximava!

 



Escrito por Luiz Lago às 21h49
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127.

        Numa manhã o município acordou com as sirenes da polícia, numa ação rápida e cirúrgica em todos os locais onde havia máquinas caça-níqueis e na casa do prefeito que foi levado de helicóptero, algemado para a capital do estado. Diante da ficha criminal de Tarso, ele foi cassado pela Câmara de Vereadores e o vice-prefeito assumiu em seu lugar.

        Silvio, o vice, era natural do município, pessoa simples e honesta, envolveu-se com Tarso através de uma coalizão partidária, sem a qual ele não conseguiria se eleger. Tão logo assumiu o procuramos e o convencemos da importância do nosso projeto para o município. Ele não tinha nada contra nós, pelo contrário, e era muito amigo de Alberto, dos tempos de colégio, quando estudaram juntos. Foi simpático, não criou mais nenhum obstáculo ao RECRIA.

        A paz voltou a reinar em nosso canteiro de obras e continuamos a trabalhar na paz do Senhor.

        Soubemos que Tarso foi assassinado na prisão, antes mesmo de ser julgado. Não se brinca com a máfia do jogo.

        No entanto tivemos que aumentar a segurança por causa do Conselho. Eles nunca se davam por vencidos e passaram a nos perturbar sistematicamente. Seja tentando cooptar os nossos funcionários, seja tentando se infiltrar como hóspedes do hotel e até mesmo respondendo às seleções de empregados e até de cientistas.

        Madalena redobrou os cuidados nas entrevistas, mas isto não era suficiente. Tínhamos que formar uma tropa de segurança maior.

        Pedimos que Carolino levasse à organização que nos dava o suporte de segurança a nossa apreensão. Os Pescadores chegaram a conclusão que deveríamos treinar pessoas da nossa confiança na comunhão e introspecção. Os escolhidos seriam escolhidos entre aqueles que na primeira entrevista feita por Madalena, apresentaram maior propensão em desenvolver estes dons. Deveriam ser jovens e trabalhando no projeto desde o início.

        Conseguimos quinze jovens bastante qualificados e iniciamos o treinamento. Um dos selecionados foi muito especial.



Escrito por Luiz Lago às 19h29
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126.

 

        Sabíamos que a máfia do jogo perdera espaço depois que o mesmo foi totalmente legalizado no país. Na legalização, somente cidades com mais de quinhentos mil habitantes e vocação turística, poderiam ter cassinos. Daí o interior ser alvo constante da ação dos contraventores que cooptavam os prefeitos e a polícia local para instalarem os seus caça níqueis em bares e lanchonetes nos quatro cantos do município. As máquinas usadas eram todas adulteradas e davam quase cem por cento de ganhos para os bandidos. O jogador perdia sempre. Era assim que eles conseguiam o dinheiro para corromperem as autoridades.

        Nosso município estava limpo porque o prefeito anterior, nosso amigo, era uma pessoa séria e honesta e não permitia este tipo de ação em seu município. Mas o prefeito agora era outro, e gostava de jogar.

        Os Pescadores se infiltravam em todos os lugares, inclusive entre criminosos de todos os tipos, colaborando muitas vezes com a polícia, denunciando-os, inclusive anonimamente. Um deles estava “trabalhando” numa das maiores quadrilhas de jogo ilegal do país. Sem levantar suspeitas, sugeriu aos seus “chefes” que visitassem Tarso e lhe fizessem uma proposta para implantar a jogatina no município. Isto foi feito e Tarso aceitou. Logo as maquininhas tomaram conta dos bares e padarias para delírio dos viciados.

        Colocamos câmeras escondidas no gabinete do prefeito e uma equipe de Pescadores o seguia noite e dia. Conseguimos assim, filmar Tarso em diversas situações irregulares, recebendo propina dos mafiosos. Munidos deste material, os Pescadores foram até a chefia regional da Polícia Federal, que era uma pessoa idônea e apresentaram a denúncia contra o prefeito. Levamos também ao conhecimento da Receita Federal e ao Ministério Público e o cerco ao corrupto estava fechado.

 



Escrito por Luiz Lago às 18h59
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125.

 

        Tão logo foi eleito, Tarso começou a batalha contra o nosso projeto. No primeiro dia como Prefeito, colocou toda a fiscalização na fazenda, analisando as plantas das construções e respectivas licenças. Além disto, determinou a paralisação das obras até que todos os documentos fossem analisados. De comum acordo com o governo federal, onde o Conselho tinha seus “capangas” em postos de altos escalões, pediu também que a fiscalização da Receita Federal e do Ministério do Trabalho fizessem uma auditoria em nossas contas e em nas fichas dos nossos funcionários.

        Acionamos nossos advogados e conseguimos continuar as obras, mas nossos mandados de segurança poderiam ser cassados a qualquer momento. Sabíamos que por trás daquilo tudo estava o Conselho e tivemos que procurar a ajuda dos Pescadores.

        Carolino viajou por uma semana e retornou com a ficha pessoal do prefeito e um plano de ação para detê-lo.

        Descobrimos que ele tinha um vício! Gostava de jogar. Era por isto que estava exilado aqui no interior. Devia uma fortuna em pelo menos duas capitais estaduais. Era contador, mas era proibido de exercer sua profissão por ter cometido diversas irregularidades. Casado, com três filhos devia pensão alimentícia, mas ainda não fora acionado na justiça. Na verdade o “nosso” prefeito era um verdadeiro “Ficha Suja” e só conseguiu se candidatar porque o Conselho deve ter dado um “jeitinho” para que sua vida pregressa não viesse à tona. Neste ponto Carolino levou um puxão de orelha dos seus superiores. Como nosso protetor deveria estar atento à todo tipo de movimentação em torno de nosso projeto. Principalmente política.

        Os Pescadores achavam que se tentassem atacar Tarso de forma direta, denunciando o seu passado, o Conselho poderia novamente neutralizar ou minimizar a denúncia e ficaríamos mais vulneráveis porque certamente Tarso ia ligar o fato á nós. Teríamos que criar uma nova situação bem mais grave para incriminá-lo. A idéia foi do próprio Carolino.

 



Escrito por Luiz Lago às 19h36
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124.

 

        -[Kimie, você sabe quantos anos eu tenho?] Perguntei depois de uns dois minutos de silêncio.

        -[Creio que uns quarenta anos.] Respondeu com sinceridade.

        -[Pois tenho cinqüenta e oito anos garota.] Falei de forma pausada para perceber o impacto causado pela revelação. Ela mostrou-se surpresa:

        -[Verdade? Mas não parece, você quase não tem cabelos brancos e este corpo de atleta, sinceramente, não dava mais do que quarenta e três.] Continuou ainda sendo sincera.

        -[Quarenta e três eu tinha quando tudo começou. Quando conheci Lea.] Percebi que ela olhou para cima, querendo dizer que a lembrança da minha relação com Lea a deixava incomodada. Ia mudar de assunto quando ela me interrompeu.

        -[Porque você fez esta pergunta, sobre idade?] Falou usando levemente a voz, como se quisesse me colocar na parede. Parti para o ataque.

        -[Você me atrai e eu te atraio. Sei onde isto pode dar. Sou trinta e sete anos mais velho que você. Não quero me magoar e muito menos magoar você.] Pronto, falei tudo que queria, o resto agora era uma questão de o que o destino teria reservado para nós.

        Vi um brilho diferente nos seus olhos. Ela colocou os dedos nos meus lábios como se quisesse me calar, embora estivéssemos falando mentalmente. Beijei os seus dedos e o brilho que vi em seu olhar, rolou pela sua face. Peguei suas mãos nas minhas e ela entendeu o que devíamos fazer.

        A nossa comunhão foi maravilhosa, posso dizer, mágica! Ouvi sinos tocando e fogos de artifício colorindo as nossas mentes. Uma orquestra sinfônica completa tocava a Sinfonia Inacabada de Schubert e os nossos corações pareciam explodir. Concluí que aquela união era abençoada e agradeci por tantos anos que me resguardei para merecer aquela preciosa dádiva dos céus.

        Quando terminamos a comunhão, chorávamos convulsivamente, lágrimas de júbilo e felicidade, uma sensação que eu não sentia havia muito tempo.

        Ao entrarmos numa das casas para dormir, percebi que as duas defensoras de plantão também choravam.



Escrito por Luiz Lago às 22h31
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123.

 

-[Perdão se atrapalhei seus pensamentos. Posso deitar aqui com você?]

-[Claro que pode, respondi em sua mente. Como estão as meninas?]

-[Estão todas dormindo, o dia foi muito puxado para elas.]

-[E Carol? Organizou os turnos para as defensoras?]

-[Sim comandante. Ela providenciou três turnos de três horas com cinco defensoras em cada turno. Inclusive tem duas delas nos observando neste momento. Ficou bem assim chefe?]

Senti a ironia provocativa de Kimie. Ela queria dizer que eu podia confiar nela. Que era competente e que faria tudo para me agradar. Esta última conclusão estava estampada em letras garrafais em sua mente, que estava bem aberta para visitas minhas, principalmente depois que deixei que ela penetrasse na minha de forma incondicional. Respondi da mesma forma, mas com mais pimenta:

-[Só podia esperar isto desta minha linda e eficiente assistente]. Ela rebateu:

-[Não seria melhor dizer só eficiente? Não me acho linda.] Percebi que o que ela fora sincera naquela última frase. Tripliquei:

-[Você linda sim! Respeita a experiência do seu comandante menina. Antiguidade é posto!] Respondi esboçando um sorriso. Ela não se deu por vencida:

-[Eu respeito, mas não acho que você seja antigo, aliás, acho você um “gatão”.] Finalizou também sorrindo.

Ela havia me cativado de verdade e sabia disto. Na sua inexperiência em assuntos do coração procurava uma maneira de se aproximar mais de mim, se expor, mostrar que estava disponível e queria uma relação. Tendo me instrospectado de uma forma plena, experimentou o sentimento que nutri e ainda nutria por Lea, no entanto sabia do meu celibato voluntário e das minhas carências subjugadas pelo controle do ego. Estávamos diante de um grande impasse e ambos sabíamos disto. Decidi que deveria tomar a iniciativa. Neste momento senti-me com vinte anos novamente.



Escrito por Luiz Lago às 17h51
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122.

 

        O dia foram cansativo, mas produtivo. Conseguimos aprontar duas casinhas e deixar a terceira quase pronta. No dia seguinte finalizaríamos a primeira etapa da nossa missão.

        Estava deitado na areia, sobre a lona da barraca desarmada, olhando o céu estrelado. Sem luzes artificiais, apenas um resto da fogueira onde assamos o peixe da janta, as estrelas brilhavam numa intensidade impressionante. Logo avistei as Três Marias. Lembrei-me das aulas de astronomia do professor Albino.

“Numa noite escura, pode-se ver muitas estrelas, mais de mil, sendo que cada estrela pertence a alguma constelação. É através das constelações que separamos o céu em porções menores, mas o problema é identificá-las. Talvez a constelação mais fácil de enxergar é Órion. Para identificá-la devemos localizar três estrelas próximas entre si, de mesmo brilho, e alinhadas. Elas são chamadas Três Marias, e formam o cinturão da constelação de Órion. Seus nomes são Mintaka, Alnilan e Alnitaka. A constelação tem a forma de um quadrilátero com as Três Marias no centro. O vértice nordeste do quadrilátero é formado por uma estrela avermelhada que me esqueci do nome e o vértice sudoeste do quadrilátero é formado por estrela azulada. Estas são as estrelas mais brilhantes da constelação.”

Era assim que o professor Albino ensinava. Pessoa especial aquela. Um professor de todas as matérias, como ele mesmo se intitulava. Autodidata, inventor e filósofo nas “horas vagas” que nem sempre eram vagas. Gostava de pescar e de fazer um churrasco muito gostoso. Infelizmente ou felizmente, faleceu antes da conclusão da Cidadela.

Estava terminando este pensamento quando senti uma presença ao meu lado. Era Kimie. Havia chegado de uma forma tão “de mansinho” que me assustou. Ela percebeu e se desculpou falando com carinho à minha mente. Sentamo-nos um frente ao outro.



Escrito por Luiz Lago às 18h59
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121.

 

        Fomos descobertos pelo Conselho! Com seus tentáculos alcançando todos os países e nos lugares mais longínquos, principalmente na mídia, não foi difícil para seus agentes do mal, utilizando os seus poderes e influências, chegaram até nós e juntarem o nosso Projeto à Loucura e Verdade e à Lea. Mandaram dois espiões para se terem certeza das suas dúvidas.

Numa manhã chuvosa, um casal apareceu, sem terem feito reservas, para se hospedar no Hotel. Por acaso Madalena estava reunida com um grupo de especialistas em piscicultura e que os atendeu fui eu.

Logo que os recebi, senti a vibração maligna, características dos agentes do Conselho. Bloqueei-me para não ser instrospectado e os recebi com naturalidade. Disse-lhes que não tínhamos vagas no Hotel e que em nossa propaganda esta premissa era explícita. Este era o recurso que usávamos para impedir pessoas mal intencionadas de virem “xeretar” nosso projeto. Era Madalena quem atendia os telefonemas com os pedidos de reserva e respondia os e-mails. Mesmo pela Internet ela “sentia” a índole das pessoas.

O casal demonstrou grande aborrecimento, chegaram até a dizer que haviam telefonado, mas quando pedi o número do telefone pelo qual ligaram, se recusaram a fornecer, inventando uma desculpa qualquer. Fui inflexível e eles retornaram para a cidade desapontados. Mas não saíram de mãos vazias.

Na cidade, encontraram o tal camarada que havia liderado o movimento contra nós, Tarso era o seu nome, e descobriram que seu sonho era ser político. Depois de conversarem com o chefe encarregado da missão, (conheço a estrutura do Conselho e sei que assim que eles procedem) prometeram ao Tarso todo o dinheiro e influência necessária para elegerem-no prefeito municipal.

E de fato, eles conseguiram os seus intentos, tornando nosso terceiro ano do projeto um verdadeiro inferno! O que o Conselho não contou foi com a ganância desmedida do Tarso.



Escrito por Luiz Lago às 18h50
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120.

       

        Havia se passado dois anos do início do projeto. O Hotel RECRIA, já concluído e em plena atividade, recebia turistas de todas as partes do mundo. Madalena era incansável na recepção e entrevista dos mesmos, sempre procurando pessoas escolhidas.

        Infelizmente, nas últimas eleições municipais, não conseguimos eleger o nosso candidato, sobrinho do prefeito que tanto nos ajudou (ele já havia se reelegido, por isto não pode concorrer). A situação ficou um tanto delicada para nós.

        As dificuldades começaram com os cidadãos do município Os que não foram selecionados, por diversos motivos, para participar do projeto da superfície, se revoltaram, achando que tinham o direito de trabalharem na fazenda. Eram pessoas sem qualificação para a construção civil. Além disto, como trabalhavam principalmente no campo, desfalcariam as fazendas, ocasionando um problema de maiores dimensões. Assim nós pensávamos. Mas a situação foi bem pior. Logo encontraram um líder com tendências más, que os organizou e partiram para o ataque contra nós.  Fizeram passeatas e protestos e até armaram barricadas na estrada que levava á fazenda, para impedir o acesso de outros candidatos e veículos levando materiais ao local.

        Isto chamou a atenção da mídia, o que de maneira nenhuma nos interessava. Algumas redes de televisão levantaram questionamentos públicos ao nosso projeto, dando apoio aos baderneiros e o próprio ministério público quis se intrometer. Neste particular os Pescadores mostraram toda a força da sua organização e tanto o MP como a mídia logo recuaram das suas investidas e nos deixaram sossegados.

        Resolvemos criar na sede do município, alguns empregos e para tanto construímos um pequeno shopping, muito bem organizado, com belas lojas de multimarcas e um pequeno espaço para lanchonetes e restaurantes. A cidade agradeceu e os ânimos se acalmaram. No entanto o mal estava feito.



Escrito por Luiz Lago às 18h37
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119.

 

        Carlos Frederico atendeu a porta ainda de pijama, a cara amassada, sinalizando que recém acordara.

        - Bom dia doutor, está tudo bem? Perguntei juntando uma pitada de ironia.

        - Bom dia, senhor André, respondeu com um sorriso de felicidade estampado no rosto estendendo os braços para me abraçar. Correspondi ao abraço e senti que muita coisa havia mudado naquele coração.

        - Estou aqui para saber a sua decisão doutor, vai participar do projeto? Perguntei, só por perguntar, já sabia a resposta.

        - Claro que vou Comandante! O senhor me devolveu a minha vida e quero recuperar o tempo perdido. Sinto-me outra pessoa, estou renovado por dentro, um novo homem, podemos dizer. E o seu livro mexeu muito comigo, além da surpresa da noite passada. Finalizou um pouco encabulado.

        - Eu sei meu amigo. Mas não fui eu quem devolveu a sua vida. Agradeça a Deus por isto doutor.

        Vi seus olhos cheios de lágrimas e percebi que a conversão fora completa, ainda que ele tivesse dificuldade de verbalizar o fato.

        Devemos muito ao doutor Carlos Frederico e a doutora Clarissa. Sem ele não teríamos a base da nossa alimentação, nossas hortaliças, legumes, e frutas em nosso abrigo subterrâneo. Os trajes protetores que ela criou nos possibilitaram ir à superfície durante a grande tribulação para efetuar acertos e concertos nos painéis dólares e nos geradores eólicos que garantiram a sobrevivência de todos nós. Em menos de dois meses depois de se reencontrarem, casaram-se numa cerimônia presidida pelo Pastor Diogo. Um ano depois nasceu Ângela, uma linda menina de olhos bem azuis, estreando o pequeno, mas muito bem aparelhado hospital ambulatório subterrâneo. Muitas crianças já haviam nascido na fazenda, mas no ambulatório de apoio da superfície, mas Ângela foi a primeira no da Cidadela. Festejamos o seu nascimento com uma bela de uma festa.



Escrito por Luiz Lago às 17h22
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118.

 

        Carlos Frederico não conseguiu articular nenhuma palavra. Ficou literalmente “engasgado” com a resposta. O braço estendido para Madalena estava petrificado e ele foi ficando vermelho como um menino que é flagrado sem as calças. Foram segundos seculares aqueles. Clarissa também estava surpresa com o encontro, e mais com a inusitada reação do seu namoradinho de adolescência.

        - Doutor Carlos? Insistiu Madalena, usando um pouquinho da voz, talvez com pena de termos criado aquela situação.

        - Sim, sim, pois eu acho que conheço, Clarissa é você? Balbuciou nosso mestre em luz artificial.

        - Você é o Carlos Frederico? Respondeu ela com uma pergunta óbvia. Ambos estavam embaraçados.

        - Sou, Carlos Frederico. O que você está fazendo aqui? Respondeu ressabiado.

        - Ela trabalha neste projeto, doutor. Afirmei sem ser prepotente. Ele virou-se para mim com um ponto de interrogação na testa e passou o olhar por todos que esboçavam um leve sorriso e de novo olhou para Clarissa.

        - Você trabalha aqui? No projeto? O que você faz? Como veio para cá, quando foi. A quantidade de perguntas foi tanta que Madalena resolveu interferir:

        - O jantar está na mesa pessoal, vamos aplacar a nossa fome enquanto podemos comer. Disse, enquanto conduzia o casal para a mesa e os colocava lado a lado para poderem conversar à vontade.

        Naquela noite a janta foi diferente. Enquanto comíamos calmamente quase sem dizer palavra, Carlos Frederico e Clarissa quase não comeram de tanto que falaram. E o tempo do jantar foi pouco para eles. Continuaram a falar na sobremesa, e no cafezinho que se seguiu. E ainda, praticamente nos ignorando, sentaram-se no sofá e falaram, e riram e até brigaram um pouco, e ficaram ali, como se estivessem sós no mundo, até altas horas da noite, segundo nos contou dona Carmem, esposa do Julio o capataz da fazenda. Na manhã seguinte, às dez horas bati em seu apartamento.

 



Escrito por Luiz Lago às 20h44
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