Blog Riacho Mágico
   
 
   



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142.

 

        Aproveitando o finzinho da claridade do dia, nos reunimos em mutirão para ajeitar o avarandado e limpar as casas para dormirmos. Para nossa surpresa, encontramos na beira da praia pequenas lagoas chamadas de lagomar cheias de camarões que foram jogados ali pelos vagalhões. Pegamos o que tínhamos para catar os crustáceos e o nosso jantar foi “divino” naquela noite. Guardamos as sobras para salgar e levar ao navio no outro dia. Entrei em contato mental com Kimie.

        - [Vocês estão bem?] perguntei.

        - [Graças a Deus, e vocês?] ela respondeu.

        - [Bem graças a Ele também. O dia foi muito cansativo, você está melhor do ferimento na cabeça? E o braço, ainda dói.] Continuei.

        - [Não fica preocupado comigo comandante. Estou bem. O braço anda dói um pouco, mas amanhã tenho certeza que você vai deixar ele novinho em folha. Você tem muito poder André. Porque tem receio de usá-lo.]

        Aquela pergunta me pegou desprevenido porque ela, de repente, mudou o rumo da conversa. Lembrei de Lea. Era o seu jeito de entrar no assunto que lhe interessava.

        Tinha que para e pensar um pouco antes de responder. Afinal, estava iniciando uma relação e precisava ser muito honesto e transparente. Minha experiência em relacionamentos me deu a convicção que um relacionamento, seja do tipo que for, amizade, amor, sociedade, trabalho, só prospera se for fundamentado na absoluta verdade. As pessoas envolvidas devem se apresentar como verdadeiramente são. De outra forma, mais adiante, a vida e o convívio, mostrará o que ela quis esconder. Daí, no meu caso, embora Kimie soubesse muito a respeito do meu ser espiritual, quando nos introjetamos mutuamente, desconhecia quase que totalmente o ser mental, a minha matéria.

        Esperando que ela não se decepcionasse, comecei a lhe falar a respeito de mim, um pouco da minha historia de vida, dos meus fracassos, até alcançar o ser vitorioso que me tornei graças a Jesus Cristo. Ela ouvia sem dizer nada.      



Escrito por Luiz Lago às 20h29
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141.

 

        -[Tudo é possível para quem crê em Deus!] Ela respondeu e continuou a falar como se estivesse me chamando a atenção.

        -[Você deveria estar fazendo o mesmo aí na praia com as meninas. Por favor, vamos nos unir em oração.]

        As palavras de Kimie provocaram uma reação imediata em meu cérebro. Voltei correndo para a casa principal e pedi que todas se reunissem comigo na praia. Rapidamente estávamos todos de mão dadas, ajoelhados num grande círculo, a despeito do vento e da chuva intensa entrando em comunhão com o Todo Poderoso.

        Não era fácil entrar em comunhão nas situações extremas como aquela. Diferente do que comumente chamamos de meditação, a comunhão é um exercício de fé. A certeza de que o Divino Espírito Santo habita em nosso ser, e a convicção que somos seres espirituais, mais do que materiais, e, portanto, podermos através desta ligação, comungarmos com o Todo Poderoso e interferirmos nas diversas situações relacionadas com a matéria que nos envolve. Naquele momento nossa fé estava sendo testada.

        Senti a vibração energética tomar conta do meu ser, sinal que o grupo conseguira entrar em comunhão. Em seguida, com a união de todos os espíritos, sentimos a união do nosso círculo com o círculo que estava formado no navio. E de imediato o turbilhão da tempestade assolou os nossos corpos entregues ao comando divino.

        Os dois círculos saem da imobilidade e começam a girar com uma rapidez incrível. E isto apenas com a força da nossa mente em comunhão. Giravam em sentido contrário à força dos ventos e assim, conseguimos neutralizar o vento forte e depois de alguns minutos que pareceram horas, os ventos cessaram e a tempestade foi se afastando aos poucos. Todos caímos exaustos na fina areia da praia. Uma nesga de céu apareceu deixando ver os últimos raios de sol que mergulhava no mar, refrescando-se de um dia quente e cansativo, prenúncio de um bom tempo para o outro dia.  

 



Escrito por Luiz Lago às 22h11
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140.

 

        A tempestade veio com tudo! O céu ficou negro como a noite e eram apenas cinco e meia da tarde.

        A velocidade do vento devia ser superior aos cem quilômetros por hora. Em segundos, o avarandado recém reformado da casa maior, foi pelos ares. Arrependi-me de ter tido a idéia de trazer as meninas para a praia, talvez estivessem mais protegidas no navio. Mas como poderia prever a tempestade? A minha culpa era maior porque eu podia sim prever a tempestade.

O desenvolvimento mental resultante da prática da comunhão e introspecção permitia que sentíssemos acontecimentos futuros. As visões que os mestres tinham, eram, na verdade, previsões. No entanto podíamos bloquear este sentido e era o que eu fazia. Nunca gostei de saber o futuro. Minha vida era processada segundo a segundo, minuto a minuto, dia a dia. Teria que repensar esta decisão. Agora muitas vidas estavam em perigo pela minha intransigência em não querer saber os acontecimentos do futuro.

Pensava nisto quando um ruído muito forte chamou minha atenção. Era a corrente da âncora do navio que havíamos enterrado na praia que, de repente foi retesada. Isto queria dizer que o navio havia se movimentado! Fiquei apavorado com a possibilidade das ancoras não conseguirem segurar o navio. Corri até onde estava a enorme peça enterrada e notei que a força do mar conseguira movê-la dez metros em direção ao mar.

Tentei contato mental com Julia, mas foi Kimie quem respondeu à minha mensagem telepática.

- [Sou eu André, Kimie. Como estão as coisas por aí?]

- [Você tem que repousar Kimie, onde está Julia?]

- [Como posso repousar se o “mundo está caindo em nossas cabeças?”] Senti o tom enérgico das suas palavras na minha mente.

Insisti com ela sobre Julia.

        - [Responde meu anjo, onde está Julia?]

        - [Está reunida com as meninas em comunhão. Ela disse que temos que parar esta tempestade ou todos morreremos.]

        - [Parar a tempestade? Como isto é possível menina.]



Escrito por Luiz Lago às 01h10
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139.

 

        Josué nos surpreendeu mais uma vez. Ele sabia onde seu pai estava! E nos tranqüilizou quanto ao seu caráter.

        - Meu pai encontrou o seu caminho comandante André, falou.

        - Como você pode saber, se não o vê a mais de cinco anos? Interpelei-o.

        - Tenho sonhos com ele. Sei que está bem, e que estabilizou a sua vida. Sei inclusive onde mora. Os senhores podem comprovar se forem até lá. Finalizou.

        Percebemos que ele estava convicto naquilo que afirmara. Sabíamos que os seus poderes eram enormes, mas não imaginávamos que eram tão extensos. Alguns de nós, podíamos, com bastante esforço, localizar uma pessoa, mas sem muita precisão. No caso de Josué ele disse o estado, a cidade, a rua e o número da casa onde morava o pai dele.

        Fizemos uma reunião para decidir. Houve unanimidade na decisão e eu e Roberto, fomos até o endereço buscar o senhor Antenor, pai de Josué. Ele não poderia ser visto conosco por causa da sua iminente missão. O Conselho poderia desconfiar de algo.

        Viajamos de jatinho e depois de automóvel alugado até uma pequena cidade à beira mar no sudeste do país. Um dia de viagem e estávamos em frente á casa que Josué havia dito que morava o seu pai. A casa era simples, mas o jardim era exuberante, havia uma placa dizendo: Vendo Plantas.

        Batemos palmas e um senhor grisalho, com uma grande barba branca nos atendeu. Estava vestido com simplicidade: bermuda branca, camisa azul claro, pés descalços. Nos recebeu com um sorriso, e mesmo sem que disséssemos o motivo da nossa visita nos mandou entrar. A casa era pequena, com poucos móveis, mas limpa e bem organizada. Uma sala conjugada com a cozinha, talvez um quarto e um banheiro era tudo o que podíamos ver. Sentimos um cheiro de café feito na hora e de imediato veio o convite para sentarmo-nos à mesa e tomar um café. Parecei que Antenor sabia que ia ser visitado. Acontece que de fato ele sabia!



Escrito por Luiz Lago às 20h09
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138.

 

        Josué conseguiu um pequeno quarto com um banheiro, nos fundos da casa deu uma senhora da sua igreja, por um preço que podia pagar. Limpava o pátio nos fins de semana e passeava com os cães da senhora, dois pastores alemães. Em retribuição ela o convidava para cear todos os dias, antes dele ir para o cursinho, e muitas vezes esta era a única refeição descente que ele fazia durante todo o dia.

        No início do ano, foi aprovado em segundo lugar, no curso de engenharia química da universidade federal, única instituição para onde prestou concurso, visto que não poderia pagar uma faculdade particular. Conseguiu um estágio numa indústria de tintas e nos fins de semana fazia bicos para aumentar os seus rendimentos. Econômico, em dois anos deu entrada num “kitinet”. Enfim tinha a sua própria casa. Formou-se e foi o orador da turma. Os seus padrinhos de formatura foram a senhora que o acolhera e o Pastor da sua igreja. Foram quatro anos de muita luta e noites mal dormidas compensadas pelo diploma de nível superior. Deixara de ser estudante e agora estava desempregado!

        Foi quando viu o nosso anúncio de recrutamento num folheto da sua igreja. A distância de onde morava, quase o fez desistir, mas alguma coisa lhe dizia no seu coração que deveria tentar aquela colocação. Com a indenização que recebeu da industria de tintas, pagou uns meses adiantados do financiamento do seu apartamentinho e veio até nós. Madalena ficou encantada com ele e logo na primeira entrevista e sua história também foi interessante. Precisávamos de pessoas com poucos laços familiares para trabalhar na parte secreta do nosso projeto.

        Também não foi surpresa para ela quando seu dom afluiu.

        O que surpreendeu madalena foi o pedido que fez quando aceitou a missão. Depois de tantos anos, como poderia encontrar o pai? E se ele não passasse nos testes para ser morador da cidadela?



Escrito por Luiz Lago às 23h44
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