Blog Riacho Mágico
   
 
   



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131.

 

        O nome dele era Josué e o seu poder era grandioso. Chegamos a ficar preocupados com a possibilidade de ser um agente do Conselho infiltrado. Mas os testes feitos por Madalena nos tranqüilizaram. O poder estava latente, imaculado, ele não sabia do dom que tinha. Começamos a treiná-lo separado dos outros, e devagar, para não intimidá-lo. Mesmo assim ele foi rápido. Em pouco mais de um mês estava lendo e falando à mente com desenvoltura. Desenvolveu também a introspecção e a comunhão e daí por diante andou sozinho. Reintegrado ao grupo, passou a liderá-lo e foi melhor professor do que nós para os seus companheiros. Em seis meses tínhamos um grupo de segurança tão bom como os treinados pelos mestres Pescadores.

        Foi com dois mestres Pescadores, que os nossos rapazes fizeram uma viagem de um mês pelo mundo, sendo testados nas mais duras provas. Quando voltaram da viagem, totalmente aprovados, foram reintegrados aos seus antigos cargos como se nada houvesse acontecido. Sentimo-nos mais protegidos então.

        Josué, no entanto, pela sua capacidade acima do normal, foi promovido a assistente da Madalena. Ele faria a pré-seleção, tarefa que era dividida entre Carolino e Alberto. Três anos haviam passado num piscar de olhos. O Hotel RECRIA começou a dar lucros depois de um ano de funcionamento. As obras na gruta estavam indo muito bem e já não precisávamos garimpar para pagar as nossas contas, visto que algumas invenções de nossos cientistas foram patenteadas e vendidas para empresas de diversos continentes. É claro que nos beneficiávamos com isto porque os nossos protótipos eram aperfeiçoados e os recebíamos sempre melhorados. Conseguimos a façanha de ter quatro equipamentos reserva para cada componente, uma folga considerável considerando o tempo que dispúnhamos.

        O grande problema era o Conselho!



Escrito por Luiz Lago às 22h49
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130.

 

        -[O que o senhor acha de usarmos a empilhadeira?] Perguntou-me Chiang timidamente.

        A solução surgiu instantânea em minha mente!

        Poderia ser arriscado, mas valeria a pena tentar!

        O plano era o seguinte:

        Amarraríamos uma corda forte na empilhadeira posicionada na praia em local onde tivesse melhor tração. A outra ponta seria amarrada à âncora antes de baixá-la. A medida que fôssemos descendo a âncora, iríamos puxando com a empilhadeira e com a ajuda das meninas maiores, como um cabo de guerra, para que ela chegasse o mais perto possível da arrebentação, onde a própria movimentação das ondas ia enterrá-la. Se desse certo faríamos o mesmo com a outra âncora. Estabelecido o plano começamos a nos movimentar. Reuni-me com as lideranças para decidir qual grupo ia até o navio colocar o nosso plano em prática. Kimie se apresentou como voluntária para amarrar a corda na âncora. Um arrepio passou pela minha espinha, o que não era um bom sinal. Tentei demovê-la, mas não adiantou, ela foi taxativa. Decidimos que ela, junto com cinco defensoras de dezessete anos, do pelotão de Carol, iam voltar ao o navio. Em cinco minutos, repassadas as instruções, elas estavam embarcadas, enfrentando a arrebentação com ondas de até um metro e meio.

        Com sorte, chegaram ao navio rapidamente, onde Julia as estava esperando. Logo a colocaram ciente do nosso plano, o que ela achou muito bom, pois tinha os mesmos temores que nós. Em menos de dez minutos avistei Kimie no convés indicando por gestos combinados que ia dar início ao plano.

        Foram os mais longos cinco minutos da minha vida!

Ela ficou do lado de fora do convés, protegida por uma corda amarrada em um colete especial para este tipo de trabalho, que era segura pelas cinco defensoras. A corda grossa estava em suas mãos. Elas foram baixando Kimie até que ela ficasse na altura da âncora. Meu coração parou de bater!



Escrito por Luiz Lago às 19h57
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129.

 

        Reunimos todo o material que podíamos usar na proteção das portas e janelas que improvisamos nas casinhas.

        Eu estava admirado com a habilidade e o empenho daquelas meninas. Como um exército de formiguinhas, elas trabalhavam organizadas e com perfeição. A comandante de cada pelotão dava as ordens mentalmente e podíamos ouvir apenas o som dos seus esforços superiores às suas capacidades. Kimie coordenava os trabalhos como uma guerreira. Peguei-me analisando o seu belo corpo e me censurei, encabulado. O amor que eu sentia era indescritível, incondicional, me rejuvenescia e eu desejava que nunca acabasse de sentir aquelas ondas de felicidade em meu coração. Parece que este pensamento foi sentido por Kimie que, virando para mim, fez com os polegares e indicadores das mãos um sinal de coração. Ambos sorrimos, e atirei um beijo para ela na palma da minha mão.

        Finalizamos este trabalho, fizemos um lanche rápido e reunimo-nos para avaliar o trabalho realizado e programarmos o próximo passo. Foi quando Carol levantou uma questão muito importante.

        Ela lembrou que foi uma tempestade como aquela que havia jogado o navio naquela praia fazendo com que encalhasse. Se esta fosse da mesma intensidade ou maior, poderia afundar o navio de uma vez por todas. As suas palavras me arrepiaram, o que era para mim, era um sinal de possibilidade! Devíamos analisar a situação em comunhão. O que poderíamos fazer para que o navio não fosse levado de volta ao fundo da enseada e afundasse?

        Foi Kimie quem levantou a questão que devia solucionar o problema. Ainda em comunhão, enviou à minha mente uma pergunta:

        -[Você sabe me dizer se o navio está ancorado?]

        Âncora, sim, era disto que o navio precisava para não ser levado pelo mar! Olhei para o navio em nossa frente e lá estavam elas, duas enormes âncoras içadas em seus lugares. Teríamos que baixá-las para segurar melhor a embarcação. O ideal seria trazê-las até a praia, mas como fazer isto? Pensei.



Escrito por Luiz Lago às 19h52
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128.

 

        O dia amanheceu nebuloso. Ventara muito do lado sul naquela noite. Quase não dormi. Ainda sentia as maravilhosas vibrações espirituais em meu corpo. As lembranças e similitudes do que acontecera entre Lea e eu naquela nossa única noite de amor, eram inevitáveis. A diferença foi de que não houve um contato material de fato. Apenas ficamos de mãos dadas.

        Kimie, por outro lado, dormiu a noite inteira, abraçada em mim. Seu lindo rosto esboçava uma paz divina e um leve sorriso em seus lábios finos e rosados, demonstrava o quanto estava feliz.

        O mar estava agitado e ondas que eu nunca vira chegavam até a praia bravias. Tomamos o café da manhã rápido e nos concentramos na restauração da terceira e última casa. Elas eram semelhantes em estrutura e tamanho. Uma sala conjugada com cozinha, três quartos e um banheiro. A terceira era um pouco maior. Tinha quatro quartos. Não havia água nem nos banheiros nem no que restou das pias da cozinha. Em todas havia um avarandado na frente, que também restauramos, onde serviríamos as refeições. Ao todo teríamos treze peças fechadas onde deveríamos acomodar o maior número de crianças, as mais novinhas, porque as maiores ficariam nas barracas que tínhamos em número mais que suficiente. Nas três salas poderíamos colocar quatro triliches e nos quartos apenas dois em cada. As bem pequenas dormiriam duas em cada cama, eram vinte em idades de quatro a sete anos. Com esta arrumação, conseguimos dormitório para cento e seis meninas.

        A restauração que fizemos nas casas, como já falei, foi superficial. Apenas tiramos telhas e madeiras das que estavam em pior estado e colocamos nas que ao meu ver, apresentavam uma estrutura melhor. Pelo visto a nossa reforma seria testada em breve! Uma tempestade “das grandes” se aproximava!

 



Escrito por Luiz Lago às 21h49
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127.

        Numa manhã o município acordou com as sirenes da polícia, numa ação rápida e cirúrgica em todos os locais onde havia máquinas caça-níqueis e na casa do prefeito que foi levado de helicóptero, algemado para a capital do estado. Diante da ficha criminal de Tarso, ele foi cassado pela Câmara de Vereadores e o vice-prefeito assumiu em seu lugar.

        Silvio, o vice, era natural do município, pessoa simples e honesta, envolveu-se com Tarso através de uma coalizão partidária, sem a qual ele não conseguiria se eleger. Tão logo assumiu o procuramos e o convencemos da importância do nosso projeto para o município. Ele não tinha nada contra nós, pelo contrário, e era muito amigo de Alberto, dos tempos de colégio, quando estudaram juntos. Foi simpático, não criou mais nenhum obstáculo ao RECRIA.

        A paz voltou a reinar em nosso canteiro de obras e continuamos a trabalhar na paz do Senhor.

        Soubemos que Tarso foi assassinado na prisão, antes mesmo de ser julgado. Não se brinca com a máfia do jogo.

        No entanto tivemos que aumentar a segurança por causa do Conselho. Eles nunca se davam por vencidos e passaram a nos perturbar sistematicamente. Seja tentando cooptar os nossos funcionários, seja tentando se infiltrar como hóspedes do hotel e até mesmo respondendo às seleções de empregados e até de cientistas.

        Madalena redobrou os cuidados nas entrevistas, mas isto não era suficiente. Tínhamos que formar uma tropa de segurança maior.

        Pedimos que Carolino levasse à organização que nos dava o suporte de segurança a nossa apreensão. Os Pescadores chegaram a conclusão que deveríamos treinar pessoas da nossa confiança na comunhão e introspecção. Os escolhidos seriam escolhidos entre aqueles que na primeira entrevista feita por Madalena, apresentaram maior propensão em desenvolver estes dons. Deveriam ser jovens e trabalhando no projeto desde o início.

        Conseguimos quinze jovens bastante qualificados e iniciamos o treinamento. Um dos selecionados foi muito especial.



Escrito por Luiz Lago às 19h29
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126.

 

        Sabíamos que a máfia do jogo perdera espaço depois que o mesmo foi totalmente legalizado no país. Na legalização, somente cidades com mais de quinhentos mil habitantes e vocação turística, poderiam ter cassinos. Daí o interior ser alvo constante da ação dos contraventores que cooptavam os prefeitos e a polícia local para instalarem os seus caça níqueis em bares e lanchonetes nos quatro cantos do município. As máquinas usadas eram todas adulteradas e davam quase cem por cento de ganhos para os bandidos. O jogador perdia sempre. Era assim que eles conseguiam o dinheiro para corromperem as autoridades.

        Nosso município estava limpo porque o prefeito anterior, nosso amigo, era uma pessoa séria e honesta e não permitia este tipo de ação em seu município. Mas o prefeito agora era outro, e gostava de jogar.

        Os Pescadores se infiltravam em todos os lugares, inclusive entre criminosos de todos os tipos, colaborando muitas vezes com a polícia, denunciando-os, inclusive anonimamente. Um deles estava “trabalhando” numa das maiores quadrilhas de jogo ilegal do país. Sem levantar suspeitas, sugeriu aos seus “chefes” que visitassem Tarso e lhe fizessem uma proposta para implantar a jogatina no município. Isto foi feito e Tarso aceitou. Logo as maquininhas tomaram conta dos bares e padarias para delírio dos viciados.

        Colocamos câmeras escondidas no gabinete do prefeito e uma equipe de Pescadores o seguia noite e dia. Conseguimos assim, filmar Tarso em diversas situações irregulares, recebendo propina dos mafiosos. Munidos deste material, os Pescadores foram até a chefia regional da Polícia Federal, que era uma pessoa idônea e apresentaram a denúncia contra o prefeito. Levamos também ao conhecimento da Receita Federal e ao Ministério Público e o cerco ao corrupto estava fechado.

 



Escrito por Luiz Lago às 18h59
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125.

 

        Tão logo foi eleito, Tarso começou a batalha contra o nosso projeto. No primeiro dia como Prefeito, colocou toda a fiscalização na fazenda, analisando as plantas das construções e respectivas licenças. Além disto, determinou a paralisação das obras até que todos os documentos fossem analisados. De comum acordo com o governo federal, onde o Conselho tinha seus “capangas” em postos de altos escalões, pediu também que a fiscalização da Receita Federal e do Ministério do Trabalho fizessem uma auditoria em nossas contas e em nas fichas dos nossos funcionários.

        Acionamos nossos advogados e conseguimos continuar as obras, mas nossos mandados de segurança poderiam ser cassados a qualquer momento. Sabíamos que por trás daquilo tudo estava o Conselho e tivemos que procurar a ajuda dos Pescadores.

        Carolino viajou por uma semana e retornou com a ficha pessoal do prefeito e um plano de ação para detê-lo.

        Descobrimos que ele tinha um vício! Gostava de jogar. Era por isto que estava exilado aqui no interior. Devia uma fortuna em pelo menos duas capitais estaduais. Era contador, mas era proibido de exercer sua profissão por ter cometido diversas irregularidades. Casado, com três filhos devia pensão alimentícia, mas ainda não fora acionado na justiça. Na verdade o “nosso” prefeito era um verdadeiro “Ficha Suja” e só conseguiu se candidatar porque o Conselho deve ter dado um “jeitinho” para que sua vida pregressa não viesse à tona. Neste ponto Carolino levou um puxão de orelha dos seus superiores. Como nosso protetor deveria estar atento à todo tipo de movimentação em torno de nosso projeto. Principalmente política.

        Os Pescadores achavam que se tentassem atacar Tarso de forma direta, denunciando o seu passado, o Conselho poderia novamente neutralizar ou minimizar a denúncia e ficaríamos mais vulneráveis porque certamente Tarso ia ligar o fato á nós. Teríamos que criar uma nova situação bem mais grave para incriminá-lo. A idéia foi do próprio Carolino.

 



Escrito por Luiz Lago às 19h36
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