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BRASIL, Sudeste, MARICA, Ponta Grossa, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, Gastronomia, Cinema e vídeo, Pesca Outro -
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124. -[Kimie, você sabe quantos anos eu tenho?] Perguntei depois de uns dois minutos de silêncio. -[Creio que uns quarenta anos.] Respondeu com sinceridade. -[Pois tenho cinqüenta e oito anos garota.] Falei de forma pausada para perceber o impacto causado pela revelação. Ela mostrou-se surpresa: -[Verdade? Mas não parece, você quase não tem cabelos brancos e este corpo de atleta, sinceramente, não dava mais do que quarenta e três.] Continuou ainda sendo sincera. -[Quarenta e três eu tinha quando tudo começou. Quando conheci Lea.] Percebi que ela olhou para cima, querendo dizer que a lembrança da minha relação com Lea a deixava incomodada. Ia mudar de assunto quando ela me interrompeu. -[Porque você fez esta pergunta, sobre idade?] Falou usando levemente a voz, como se quisesse me colocar na parede. Parti para o ataque. -[Você me atrai e eu te atraio. Sei onde isto pode dar. Sou trinta e sete anos mais velho que você. Não quero me magoar e muito menos magoar você.] Pronto, falei tudo que queria, o resto agora era uma questão de o que o destino teria reservado para nós. Vi um brilho diferente nos seus olhos. Ela colocou os dedos nos meus lábios como se quisesse me calar, embora estivéssemos falando mentalmente. Beijei os seus dedos e o brilho que vi em seu olhar, rolou pela sua face. Peguei suas mãos nas minhas e ela entendeu o que devíamos fazer. A nossa comunhão foi maravilhosa, posso dizer, mágica! Ouvi sinos tocando e fogos de artifício colorindo as nossas mentes. Uma orquestra sinfônica completa tocava a Sinfonia Inacabada de Schubert e os nossos corações pareciam explodir. Concluí que aquela união era abençoada e agradeci por tantos anos que me resguardei para merecer aquela preciosa dádiva dos céus. Quando terminamos a comunhão, chorávamos convulsivamente, lágrimas de júbilo e felicidade, uma sensação que eu não sentia havia muito tempo. Ao entrarmos numa das casas para dormir, percebi que as duas defensoras de plantão também choravam.
Escrito por Luiz Lago às 22h31
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123. -[Perdão se atrapalhei seus pensamentos. Posso deitar aqui com você?] -[Claro que pode, respondi em sua mente. Como estão as meninas?] -[Estão todas dormindo, o dia foi muito puxado para elas.] -[E Carol? Organizou os turnos para as defensoras?] -[Sim comandante. Ela providenciou três turnos de três horas com cinco defensoras em cada turno. Inclusive tem duas delas nos observando neste momento. Ficou bem assim chefe?] Senti a ironia provocativa de Kimie. Ela queria dizer que eu podia confiar nela. Que era competente e que faria tudo para me agradar. Esta última conclusão estava estampada em letras garrafais em sua mente, que estava bem aberta para visitas minhas, principalmente depois que deixei que ela penetrasse na minha de forma incondicional. Respondi da mesma forma, mas com mais pimenta: -[Só podia esperar isto desta minha linda e eficiente assistente]. Ela rebateu: -[Não seria melhor dizer só eficiente? Não me acho linda.] Percebi que o que ela fora sincera naquela última frase. Tripliquei: -[Você linda sim! Respeita a experiência do seu comandante menina. Antiguidade é posto!] Respondi esboçando um sorriso. Ela não se deu por vencida: -[Eu respeito, mas não acho que você seja antigo, aliás, acho você um “gatão”.] Finalizou também sorrindo. Ela havia me cativado de verdade e sabia disto. Na sua inexperiência em assuntos do coração procurava uma maneira de se aproximar mais de mim, se expor, mostrar que estava disponível e queria uma relação. Tendo me instrospectado de uma forma plena, experimentou o sentimento que nutri e ainda nutria por Lea, no entanto sabia do meu celibato voluntário e das minhas carências subjugadas pelo controle do ego. Estávamos diante de um grande impasse e ambos sabíamos disto. Decidi que deveria tomar a iniciativa. Neste momento senti-me com vinte anos novamente.
Escrito por Luiz Lago às 17h51
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122. O dia foram cansativo, mas produtivo. Conseguimos aprontar duas casinhas e deixar a terceira quase pronta. No dia seguinte finalizaríamos a primeira etapa da nossa missão. Estava deitado na areia, sobre a lona da barraca desarmada, olhando o céu estrelado. Sem luzes artificiais, apenas um resto da fogueira onde assamos o peixe da janta, as estrelas brilhavam numa intensidade impressionante. Logo avistei as Três Marias. Lembrei-me das aulas de astronomia do professor Albino. “Numa noite escura, pode-se ver muitas estrelas, mais de mil, sendo que cada estrela pertence a alguma constelação. É através das constelações que separamos o céu em porções menores, mas o problema é identificá-las. Talvez a constelação mais fácil de enxergar é Órion. Para identificá-la devemos localizar três estrelas próximas entre si, de mesmo brilho, e alinhadas. Elas são chamadas Três Marias, e formam o cinturão da constelação de Órion. Seus nomes são Mintaka, Alnilan e Alnitaka. A constelação tem a forma de um quadrilátero com as Três Marias no centro. O vértice nordeste do quadrilátero é formado por uma estrela avermelhada que me esqueci do nome e o vértice sudoeste do quadrilátero é formado por estrela azulada. Estas são as estrelas mais brilhantes da constelação.” Era assim que o professor Albino ensinava. Pessoa especial aquela. Um professor de todas as matérias, como ele mesmo se intitulava. Autodidata, inventor e filósofo nas “horas vagas” que nem sempre eram vagas. Gostava de pescar e de fazer um churrasco muito gostoso. Infelizmente ou felizmente, faleceu antes da conclusão da Cidadela. Estava terminando este pensamento quando senti uma presença ao meu lado. Era Kimie. Havia chegado de uma forma tão “de mansinho” que me assustou. Ela percebeu e se desculpou falando com carinho à minha mente. Sentamo-nos um frente ao outro.
Escrito por Luiz Lago às 18h59
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121. Fomos descobertos pelo Conselho! Com seus tentáculos alcançando todos os países e nos lugares mais longínquos, principalmente na mídia, não foi difícil para seus agentes do mal, utilizando os seus poderes e influências, chegaram até nós e juntarem o nosso Projeto à Loucura e Verdade e à Lea. Mandaram dois espiões para se terem certeza das suas dúvidas. Numa manhã chuvosa, um casal apareceu, sem terem feito reservas, para se hospedar no Hotel. Por acaso Madalena estava reunida com um grupo de especialistas em piscicultura e que os atendeu fui eu. Logo que os recebi, senti a vibração maligna, características dos agentes do Conselho. Bloqueei-me para não ser instrospectado e os recebi com naturalidade. Disse-lhes que não tínhamos vagas no Hotel e que em nossa propaganda esta premissa era explícita. Este era o recurso que usávamos para impedir pessoas mal intencionadas de virem “xeretar” nosso projeto. Era Madalena quem atendia os telefonemas com os pedidos de reserva e respondia os e-mails. Mesmo pela Internet ela “sentia” a índole das pessoas. O casal demonstrou grande aborrecimento, chegaram até a dizer que haviam telefonado, mas quando pedi o número do telefone pelo qual ligaram, se recusaram a fornecer, inventando uma desculpa qualquer. Fui inflexível e eles retornaram para a cidade desapontados. Mas não saíram de mãos vazias. Na cidade, encontraram o tal camarada que havia liderado o movimento contra nós, Tarso era o seu nome, e descobriram que seu sonho era ser político. Depois de conversarem com o chefe encarregado da missão, (conheço a estrutura do Conselho e sei que assim que eles procedem) prometeram ao Tarso todo o dinheiro e influência necessária para elegerem-no prefeito municipal. E de fato, eles conseguiram os seus intentos, tornando nosso terceiro ano do projeto um verdadeiro inferno! O que o Conselho não contou foi com a ganância desmedida do Tarso.
Escrito por Luiz Lago às 18h50
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120. Havia se passado dois anos do início do projeto. O Hotel RECRIA, já concluído e em plena atividade, recebia turistas de todas as partes do mundo. Madalena era incansável na recepção e entrevista dos mesmos, sempre procurando pessoas escolhidas. Infelizmente, nas últimas eleições municipais, não conseguimos eleger o nosso candidato, sobrinho do prefeito que tanto nos ajudou (ele já havia se reelegido, por isto não pode concorrer). A situação ficou um tanto delicada para nós. As dificuldades começaram com os cidadãos do município Os que não foram selecionados, por diversos motivos, para participar do projeto da superfície, se revoltaram, achando que tinham o direito de trabalharem na fazenda. Eram pessoas sem qualificação para a construção civil. Além disto, como trabalhavam principalmente no campo, desfalcariam as fazendas, ocasionando um problema de maiores dimensões. Assim nós pensávamos. Mas a situação foi bem pior. Logo encontraram um líder com tendências más, que os organizou e partiram para o ataque contra nós. Fizeram passeatas e protestos e até armaram barricadas na estrada que levava á fazenda, para impedir o acesso de outros candidatos e veículos levando materiais ao local. Isto chamou a atenção da mídia, o que de maneira nenhuma nos interessava. Algumas redes de televisão levantaram questionamentos públicos ao nosso projeto, dando apoio aos baderneiros e o próprio ministério público quis se intrometer. Neste particular os Pescadores mostraram toda a força da sua organização e tanto o MP como a mídia logo recuaram das suas investidas e nos deixaram sossegados. Resolvemos criar na sede do município, alguns empregos e para tanto construímos um pequeno shopping, muito bem organizado, com belas lojas de multimarcas e um pequeno espaço para lanchonetes e restaurantes. A cidade agradeceu e os ânimos se acalmaram. No entanto o mal estava feito.
Escrito por Luiz Lago às 18h37
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119. Carlos Frederico atendeu a porta ainda de pijama, a cara amassada, sinalizando que recém acordara. - Bom dia doutor, está tudo bem? Perguntei juntando uma pitada de ironia. - Bom dia, senhor André, respondeu com um sorriso de felicidade estampado no rosto estendendo os braços para me abraçar. Correspondi ao abraço e senti que muita coisa havia mudado naquele coração. - Estou aqui para saber a sua decisão doutor, vai participar do projeto? Perguntei, só por perguntar, já sabia a resposta. - Claro que vou Comandante! O senhor me devolveu a minha vida e quero recuperar o tempo perdido. Sinto-me outra pessoa, estou renovado por dentro, um novo homem, podemos dizer. E o seu livro mexeu muito comigo, além da surpresa da noite passada. Finalizou um pouco encabulado. - Eu sei meu amigo. Mas não fui eu quem devolveu a sua vida. Agradeça a Deus por isto doutor. Vi seus olhos cheios de lágrimas e percebi que a conversão fora completa, ainda que ele tivesse dificuldade de verbalizar o fato. Devemos muito ao doutor Carlos Frederico e a doutora Clarissa. Sem ele não teríamos a base da nossa alimentação, nossas hortaliças, legumes, e frutas em nosso abrigo subterrâneo. Os trajes protetores que ela criou nos possibilitaram ir à superfície durante a grande tribulação para efetuar acertos e concertos nos painéis dólares e nos geradores eólicos que garantiram a sobrevivência de todos nós. Em menos de dois meses depois de se reencontrarem, casaram-se numa cerimônia presidida pelo Pastor Diogo. Um ano depois nasceu Ângela, uma linda menina de olhos bem azuis, estreando o pequeno, mas muito bem aparelhado hospital ambulatório subterrâneo. Muitas crianças já haviam nascido na fazenda, mas no ambulatório de apoio da superfície, mas Ângela foi a primeira no da Cidadela. Festejamos o seu nascimento com uma bela de uma festa.
Escrito por Luiz Lago às 17h22
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118. Carlos Frederico não conseguiu articular nenhuma palavra. Ficou literalmente “engasgado” com a resposta. O braço estendido para Madalena estava petrificado e ele foi ficando vermelho como um menino que é flagrado sem as calças. Foram segundos seculares aqueles. Clarissa também estava surpresa com o encontro, e mais com a inusitada reação do seu namoradinho de adolescência. - Doutor Carlos? Insistiu Madalena, usando um pouquinho da voz, talvez com pena de termos criado aquela situação. - Sim, sim, pois eu acho que conheço, Clarissa é você? Balbuciou nosso mestre em luz artificial. - Você é o Carlos Frederico? Respondeu ela com uma pergunta óbvia. Ambos estavam embaraçados. - Sou, Carlos Frederico. O que você está fazendo aqui? Respondeu ressabiado. - Ela trabalha neste projeto, doutor. Afirmei sem ser prepotente. Ele virou-se para mim com um ponto de interrogação na testa e passou o olhar por todos que esboçavam um leve sorriso e de novo olhou para Clarissa. - Você trabalha aqui? No projeto? O que você faz? Como veio para cá, quando foi. A quantidade de perguntas foi tanta que Madalena resolveu interferir: - O jantar está na mesa pessoal, vamos aplacar a nossa fome enquanto podemos comer. Disse, enquanto conduzia o casal para a mesa e os colocava lado a lado para poderem conversar à vontade. Naquela noite a janta foi diferente. Enquanto comíamos calmamente quase sem dizer palavra, Carlos Frederico e Clarissa quase não comeram de tanto que falaram. E o tempo do jantar foi pouco para eles. Continuaram a falar na sobremesa, e no cafezinho que se seguiu. E ainda, praticamente nos ignorando, sentaram-se no sofá e falaram, e riram e até brigaram um pouco, e ficaram ali, como se estivessem sós no mundo, até altas horas da noite, segundo nos contou dona Carmem, esposa do Julio o capataz da fazenda. Na manhã seguinte, às dez horas bati em seu apartamento.
Escrito por Luiz Lago às 20h44
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117. Kimie contou a sua história. -[Fiquei órfã aos oito anos. Meus pais morreram num terremoto que destruiu totalmente a cidade em que morávamos. Pelo que sei, todos os meus parentes morreram neste cataclismo. Fui a única que escapei, e sem nenhum arranhão.] Ela sorriu encabulada e continuou: - [Fui levada para um orfanato do governo que oferecia tudo que uma criança como eu poderia querer. O regime era muito rígido, estudávamos seis horas por dia e aprendíamos diversas atividades domésticas e profissionais, além de uma quantidade variada de esportes. Saí-me muito bem em natação e judô, ganhei inclusive algumas medalhas em campeonatos infantis. Comecei a trabalhar com doze anos numa fábrica de aparelhos eletrônicos e com quatorze já chefiava doze meninas.] Ela fez uma pausa para saborear aquela boa lembrança, observou minha expressão de impressionado e continuou: - [Quando completei dezesseis anos, teria que sair do orfanato e viver às minhas custas. Ganhava bem na fábrica, mas queria continuar estudando e o horário do trabalho era muito puxado, foi quando a dona Mary apareceu com Lea e fui selecionada.] - [Você foi treinada por ela?] Perguntei. - [Sim, ficamos amigas, me tornei uma das suas assistentes, como sou agora de você. Aqueles dias foram maravilhosos. Na primeira vez que entrei em comunhão, parecia que ia morrer.] Ela falou isto de uma maneira tão meiga que me emocionou. Esforcei-me para que ela não percebesse, mas foi em vão. - [Você ama Lea?] A pergunta foi direta e seus sentidos aguçados se prepararam para me instrospectar em busca da verdade do meu íntimo. Resolvi lhe deixar que buscasse a verdade e conhecesse a minha história com Lea. Abri todas as minhas defesas e me coloquei absolutamente nu diante dela. Ela fechou os olhos e depois de alguns minutos vasculhando o meu intimo, deixou que uma lágrima rolasse pela sua face delicada. Sua mão pressionou a minha novamente e respondi da mesma forma.
Escrito por Luiz Lago às 01h47
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