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31.

 

Observei de longe o que parecia ser uma cumeeira, parte do que restou de um telhado de alvenaria, que servia para o meu propósito. Dirigi-me para lá. Chegando mais perto, porém, me surpreendi com as proporções da construção. Era o que restou de algum prédio público ou mesmo de uma igreja grande.

A areia havia soterrado quase a totalidade da construção. Havia, porém uma passagem, estreita, mas confortável, podia caminhar de pé por ela, que conduzia até seu interior. Deixei meus equipamentos na entrada, e com a lanterna e o medidor de radiação, entrei por ela. O lugar foi ficando espaçoso e cheguei a uma escada que levava até o pavimento térreo do edifício. Estava bem escuro lá dentro, por isto desci com cuidado. Quando a escada chegou ao fim, estava num salão amplo, com alguns móveis ainda intactos. Eram mesas, cadeiras e até alguns computadores cobertos de poeira. Aquele prédio havia, de alguma forma, escapado quase ileso, do cataclismo que assolara aquela região. Encontrei inclusive tecidos próximo à parede, provavelmente pedaços de cortinas que decoravam o salão, com quase certeza, uma repartição pública, prefeitura, talvez.

Voltei até o topo, peguei meus equipamentos, e de volta ao salão, juntei umas mesas, limpei a poeira, estendi os tecidos depois de sacudi-los bem, e fiz uma bela cama para mim. Era meu primeiro contato, depois de tantos anos com o que restou da nossa civilização. Depois de tanto tempo, ia dormir num local que me oferecia um pouco de conforto e segurança, pelo menos foi assim que imaginei quando fechei os olhos para o descanso daquela noite.



Escrito por Luiz Lago às 18h35
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30.

 

        Puxa! Quando ocupamos a mente com boas lembranças, o tempo passa rápido, pensei enquanto guardava as minhas anotações. Ri um pouco daquela situação insólita. Porque estou fazendo estas anotações todas. Era apenas para ser um diário de viajem para caso me acontecesse alguma coisa, deveria servir para quem viesse depois de mim. De repente estava anotando tudo, inclusive as coisas que haviam acontecido há tempos atrás, como se fosse escrever um livro. Quem ia ler? Caí na gargalhada, e o meu riso forte ecoou entre as paredes nuas e queimadas da cidade deserta.

        Eram umas quatro horas da tarde. Havia caminhado oito horas como estava acostumado, e não me sentia tão cansado como quando caminhei no deserto. Alguma coisa dera errado nesta caminhada. Devo ter me distraído com meus pensamentos, e descuidei das coordenadas. Verifiquei minha posição. Sem querer tinha derivado para o sul alguns graus, e por isto não consegui chegar nem ao descampado que antecede a cratera. Resolvi caminhar mais um pouco, até perto do anoitecer, pelo menos, para compensar os quilômetros perdidos. Nada é por acaso, pensei.

        Enquanto caminhava, depois de uma hora e pouco, notei que os escombros foram ficando mais esparsos, e de repente, me vi na planície. E no deserto novamente!

        Sentei desanimado numa rocha e olhei para aquela imensidão de areia e pedra, muitas, mais pedras do que havia no deserto que deixei para trás. Como transpor mais este obstáculo inóspito? Quantos quilômetros ainda? E a falta d’água? Ainda havia a cratera. Outra incógnita e pensamentos negativos me rondando! Resolvi descansar, buscar a comunhão, pensei, e logo me veio em mente a Palavra: – “Os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor”, conforto e defesa contra todos os meus temores.

        Voltei atrás, buscando um abrigo entre os últimos escombros para passar a noite que se aproximava.



Escrito por Luiz Lago às 18h10
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29.

 

Tudo se localizava em torno da Prefeitura, que ficava também em frente à praça.

        Jantamos num restaurante pequeno e aconchegante, dirigido por uma senhora morena, simpática, Dona Neca, que nos apresentou um prato típico da região, Guisado Maria Luiza, com arroz, feijão preto e salada verde. Uma delícia. Depois foi a vez da sobremesa um doce de laranja de dar água na boca.

        Após o jantar conversamos um pouco com Dona Neca, mais por retribuição a forma gentil com que ela nos tratou, e também como pesquisa, visto ser aquele o restaurante melhor freqüentado da localidade. É claro que não falamos para ela o nosso verdadeiro interesse em estar ali. Curiosa pela nossa presença, Dona Neca, forneceu detalhes da sociedade local, nomes de pessoas influentes, e até nos contou algumas e curiosidades fofocas do lugarejo.

        Contou-nos que recentemente havia acontecido uma situação delicada e até cômica com um fazendeiro, cliente seu. A esposa do sujeito, seu Alberto, era este o nome dele, havia fugido com o padre da cidade. Era um padre jovem que viera em substituição ao padre Antenor que falecera de velhice com mais de noventa anos. Neca falava gesticulando e com tantas caretas que caímos na gargalhada com os detalhes daquela triste situação.

        Pois o tal de seu Alberto, depois do ocorrido, ficou meio abestalhado, contou-nos ela, e começou a falar em final dos tempos, fim do mundo mesmo, que estava próximo, dizer coisas sem nexo sobre visões relacionadas com as suas terras.

        Neste ponto passei a me interessar pelo assunto. Afinal, algumas coisas que ela disse que ele falava, batiam com a minha visão. As suas terras poderiam ser as que eu procurava. Notei que Roberto também ficou intrigado com o relato de Neca.

        Agradecemos a hospitalidade, pagamos a conta e voltamos para o hotel decididos a procurar o homem no outro dia. Só que não foi isto que aconteceu.



Escrito por Luiz Lago às 17h57
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28.

 

        Como observamos da mini fortaleza, aquela região havia se transformado num grande deserto. Nossas precárias leituras meteorológicas indicavam que estávamos instalados exatamente na divisa deste imenso deserto, que se formara no meio do continente.

        Lembrei-me de como escolhera a propriedade para instalar a “Cidade da Esperança...”.

        Roberto me fez vender o meu carrinho e comprar uma boa camionete, cabine dupla, com tração nas quatro rodas e movida a óleo diesel. Fiquei apavorado com o preço, o que deram pela minha “fubica” não pagava nem uma porta daquele carro, e não era zero km, mas estava em ótimo estado de conservação e de mecânica.

        Esperamos a época da estiagem, pois naquela região chovia bastante e as estradas não eram boas. A viagem transcorreu tranqüila e, em um dia chegamos à cidade próxima do local indicado na visão. Combinamos fazer primeiro, uma pesquisa em relação a preços e condições das terras por ali.

        O lugar era lindo! A maior parte, uma grande planície com muita água e rios, e próximo, uma grande mata fechada que rodeava uns montes, não muito altos. Existiam fazendas de gado e plantação de soja, arroz e milho. Também, nas proximidades da cidade alguns pequenos sítios se encarregavam do abastecimento de frutas, verduras, legumes, ovos, galinhas, porcos, enfim, um cinturão verde que proporcionava autonomia à região.

        A cidadezinha situava-se no alto de uma leve colina, de onde se podia descortinar toda esta beleza natural.

        Nos hospedamos num hotelzinho simples e simpático logo na entrada da cidade. As pessoas do lugar, quando viam a placa na camionete, nos olhavam intrigados: o que estes sujeitos da cidade grande querem por estas bandas? Eles deviam pensar.

        Depois de um bom banho fomos ao centro, à pé, reconhecer o terreno e localizar os lugares que teríamos que ir no dia seguinte: corretores de imóveis, cartório e banco. Levamos menos de cinco minutos até chegar ao centro da cidade, a Praça da Matriz, e menos de um para fazer o nosso reconhecimento.



Escrito por Luiz Lago às 21h48
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27.

 

        Minha única preocupação fora à falta da água, era com a radiação. Enquanto caminhava, olhava constantemente para o medidor de radiação. Nenhuma alteração. Até pensei que o mesmo poderia estar estragado, daí examinei-o e fiz alguns testes que André Junior tinha me ensinado e constatei que estava funcionando com perfeição. Devia estar a menos de um quilometro do descampado que avistei na ultima parada. A radiação ali poderia estar mais elevada devido a proximidade da cratera. A menos que aquela cratera não tenha sido ocasionada por uma bomba. Tudo me indicava que sim, segundo as notícias daqueles dias terríveis. Seria muito bom se estivesse errado. Era o que o medidor de radiação indicava. Se a cratera tivesse sido o resultado da explosão de uma bomba, por certo a radiação seria muito maior, mesmo depois de quatro anos. Deus está no comando, pensei. Devo ser mais otimista e confiar mais. “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia Nele, o mais Ele fará.”, foi o versículo que me ocorreu. A lembrança me aliviou o coração.

        Uma coisa estranha era que não tinha me deparado mais com nenhuma formiga, Graças a Deus, pensei. Nem formigas e nem outro tipo qualquer de vida. Embora não estivesse no deserto, onde apenas me apareceu a serpente, que poderia ser uma ilusão, a ausência de vida me fazia sentir um vazio enorme, como se estivesse num grande cenário de filme de ficção científica totalmente esterilizado. Uma realidade, irreal, fora dos padrões da concepção humana. Um mundo morto, estático e sem movimento. A única sensação de atividade além da minha era o amigo Sol que se deslocava diariamente do oriente para o ocidente e do que restou da Lua, à noite, aparecendo de acordo com as suas fases sem o glamour de antigamente. Nem nuvens apareciam naquela terra transformada em caatinga.



Escrito por Luiz Lago às 18h54
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26.

 

        Enquanto recordava os acontecimentos que me levaram a empreender esta aventura, caminhei por entre os escombros do que restou daquela cidade em direção à cratera. O sol não castigava tanto como no deserto, mas continuava bem forte. Caminhei sempre buscando as sombras das paredes ainda em pé, visto que nenhuma arvore sobrou depois da catástrofe. Observei que nenhuma vegetação havia brotado do solo e consultei o medidor de radiação para saber qual o nível de radiação estava me expondo. Até aquele momento, tudo bem, existia sim radiação, mas tolerável para o meu organismo protegido.

        Grande herança Lea havia me deixado. O controle quase absoluto do que meu corpo podia ou não absorver. Dei graças a Deus por isto e resolvi parar para o primeiro descanso do dia.

        Naquelas quatro horas de caminhada me cansara menos, pois o terreno era firme, mas senti mais sede. Procurei um lugar alto onde pudesse ter uma visão melhor da minha localização. Escalei uma parede até o que sobrou de uma varanda no segundo piso. O espaço era pequeno e perigoso, por isto, tomei cuidado para não escorregar, seria uma queda de quase seis metros.

        Era uma boa posição, não avistei a cratera, mas sim uma clareira grande à frente, uma e meia hora de caminhada de onde estava. Devia ser próxima a cratera, pensei. Desci de onde estava, me alimentei de cereais e nozes, tomei um pouco de água e notei desanimado que minha água estava mesmo no fim. Uma pontinha de desânimo tomou conta do meu coração. Busquei na Comunhão com Deus a força, coragem e principalmente a orientação para mais este percalço. Em minutos consegui entrar em Comunhão e assim permaneci por quase uma hora. Quando despertei do transe espiritual, me senti renovado, corporal e espiritualmente. Arrumei meu equipamento e continuei minha jornada.



Escrito por Luiz Lago às 19h24
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