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25.

 

 Apresentei-me como voluntário para a missão, quase todos discordaram, considerando minha posição no comando. Argumentei que o meu avançado estágio na Comunhão me proporcionava um preparo maior para enfrentar as dificuldades que certamente ia encontrar pela frente. Minhas chances de sobrevivência eram maiores do qualquer um na mini fortaleza. Meus poderes de introspecção e preparação corporal, me protegeriam contra possíveis ataques de sobreviventes hostis, animais ou pessoas, além de elevar minha tolerância à radiação que estaria mais forte nas proximidades do meu destino. Com algumas relutâncias, principalmente dos meus filhos, preparei-me para a enfrentar a viagem.

Roberto e meus filhos me conduziram em um dos nossos “blindados”, até o início do deserto. O veículo, uma adaptação de carro popular, com “cara de Jipe” e carroceria blindada, tem um motor elétrico movido por energia solar, com tração nas quatro rodas, pneus lameiros, consegue com quatro pessoas a incrível velocidade de 60 km por hora. Era outra invenção brilhante do meu filho André Junior.

Saímos da mini fortaleza ainda noite, contando com a energia das seis baterias carregadas no dia anterior. Quando o sol nasceu, já havíamos percorrido mais de cem quilômetros. Chegamos ao destino às quatro horas daquele mesmo dia.

Havíamos feito aquele percurso duas vezes na tentativa de chegar até o mar. Aquele era o caminho mais curto, e com o melhor trajeto, visto que as estradas não foram castigadas pelos terremotos e explosões. Levamos na primeira vez mais de três meses para percorrer os quase setecentos quilômetros, pois tivemos que construir quatro balsas para atravessarmos rios mais caudalosos e duas pontes rústicas, sobre os dois regatos que encontramos.

Na segunda vez fomos e voltamos em vinte e quatro horas de sol, fora o tempo gasto com a expedição ao deserto. Avançamos a pé no deserto por dez quilômetros, mas voltamos. Preparávamos uma terceira expedição quando recebemos o pedido de socorro.



Escrito por Luiz Lago às 19h13
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24.

 

Foi numa noite, em torno de onze horas que o velho rádio se manifestou, claramente uma voz feminina disse em nosso idioma:

- “Por favor, socorro, se alguém estiver me ouvindo! Estamos em perigo, por favor, ajudem-nos!”.

Enquanto Marco um dos guardiões, corria para sintonizar melhor a recepção, o outro, Ivan, entrou em contato com o supervisor que logo me acionou e aos outros chefes. Corremos todos para a sala de comando. Ouvimos a voz, um pouco mais clara, passar ao Marco as coordenadas do local em que as pessoas se encontravam. De acordo com o que pude ouvir, as linhas do pedido de socorro, tinham alguma coisa que me era familiar. Pareciam seguir instruções do MMSH - Manual e Mapas para Sobreviventes do Holocausto que publiquei e divulguei por todos os meios de comunicação e em vinte línguas estrangeiras, seis meses antes da catástrofe. Peguei o microfone da mão de Marco e falei:

- Aqui quem fala é o Comandante André Perez, quem está falando aí? Diga o seu nome e o lugar de onde você está enviando esta mensagem. Esperei alguns segundos e repeti a mensagem, Mais uns segundos e veio a resposta:

- “Quem fala é Madalena! Precisamos de ajuda! Falamos da Cidade da Esperança...”

E o rádio emudeceu novamente. Só estática podia ser ouvida. Passamos muitas horas tentando contato naquela freqüência e nenhuma resposta.

Analisamos as coordenadas e constatamos sua exatidão, de acordo com os nossos mapas. Eles possuíam um mapa do MMSH. A ultima frase e a localização indicada nos deixou perplexos. Reunimos o comando e traçamos um plano para chegarmos até aquelas coordenadas. Nossos recursos de locomoção eram precários. Reunimos o comando e avaliamos a situação. Foi quando um novo chamado aconteceu.

Desta vez foi pela tarde e a maioria dos chefes estava na sala. A mesma voz feminina, um pouco mais fraca:

- “Por favor, Comandante André, estamos sem comando aqui, precisamos de ajuda, pouca água e quase nenhuma comida, somos quase mil pessoas...”.

O rádio ficou mudo novamente. Diante deste novo apelo decidimos ajudá-los!



Escrito por Luiz Lago às 16h19
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23.

 

Para iniciar a Comunhão, é necessário desapegar-se totalmente da matéria e é muito difícil um ser material como somos, deixarmos de amar o que podemos tocar.

Subjugar os nossos egos enormes e ditadores em nós, é a segunda etapa, tão difícil quanto a primeira. Depois a terceira etapa que é a disciplina. Dias e dias seguindo o mesmo ritual, a mesma postura, horas á fio ajoelhados, sem comer, sem beber, apenas buscando com todo o nosso coração, a centelha divina em nós, a chama do Senhor que habita em cada ser humano. Assim começa a Comunhão. Liberado de todo o afã material, de toda a tentação orgulhosa do ego e postado perante o Senhor como um cristal transparente, imaculado. Daí resulta a fé que move montanhas, que faz com que rios e mares se abram, que faz parar o tempo.

Sem a Comunhão eu nada seria, e nem poderia estar aqui agora, além de não ter conseguido nem um milésimo do que realizei. Sem ela não poderia me proteger deste mundo desconhecido devastado e destruído pela ação maligna do ser humano. Muito menos ter a certeza de que era uma pequena peça do enorme quebra-cabeça da reconstrução do mundo.

Viajando nestes pensamentos, me lembrei novamente da mensagem que recebemos em nossa mini-fortaleza.

Fazia mais de um ano que os rádios só transmitiam estática. Decidimos, com objetivo de prolongar a vida útil daquelas máquinas,  ultrapassadas em nosso tempo, mas muito importantes agora, depois que o pulso eletrônico acabou com a maioria das máquinas eletrônicas de ultima geração, a deixar apenas um dos rádios ligado, o mais potente, com maior amplitude, praticamente mais de vinte mil quilômetros. Ele fica na sala do comando da mini fortaleza, no abrigo subterrâneo, junto com os instrumentos de comunicação e vigilância. Existem sempre dois guardiões nesta sala, que fazem turnos de vigilância de oito horas diariamente. Dali se pode acompanhar todas as atividades na mini fortaleza, no subterrâneo e as atividades externas, na fazenda, além do controle das divisas e dos portões.



Escrito por Luiz Lago às 18h48
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22.

 

        Para quem procura diariamente a comunhão com o Espírito do Senhor, a vida fica mais fácil. Na comunhão você entrega a sua vida nas mãos de Deus, ELE assume o comando total de seus atos e atitudes. Embora isto possa parecer que você fica tolhido, que perde a liberdade, é exatamente o contrário o que acontece. Na sua entrega de livre e espontânea vontade o seu querer ao querer divino, você passa fazer parte da comunhão universal do qual o Senhor é o Todo. Você passa a usufruir toda a energia e poder que emanam do EU SOU.

É claro que seu corpo material é frágil e impõe limites a este uso, mas a nível mental, intelectual, de sabedoria mesmo, você consegue chegar a conclusões e tomar atitudes, muito mais rápido do que quem não está em comunhão. A introspecção, por exemplo. Em comunhão seus sentidos são expandidos a níveis fantásticos, possibilitando a auto-análise, mental e corporal de você mesmo. É um pouco difícil explicar, mas você consegue analisar a sua saúde, e até curar-se de alguma doença ou mesmo da algum ferimento, ou neutralizar algum veneno que tenha penetrado em seu corpo apenas com o poder da sua mente em comunhão com o Santo Espírito. Foi Lea quem me ensinou e ajudou a aperfeiçoar este poder em mim. Presenciei por duas vezes ela ressuscitar um ser. Uma ave, morta pela poluição do mar e meu filho. Neste último caso ela deu sua vida, sua energia divina para que André Junior pudesse viver.



Escrito por Luiz Lago às 19h30
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21.

 

        Eram seis e meia da manhã. Arrumei as minhas coisas e olhei pela varanda do quarto e o que avistei me encheu de horror. O apartamento ficava numa parte alta daquela região. Não percebi isto na noite anterior porque estava mais preocupado em me defender de possíveis perigos, daí fui subindo devagar. Da varanda dava para ver um labirinto de prédios semi-destruídos, que acabavam, abruptamente, como se fosse numa enorme cratera. Possivelmente o local de um dos impactos.

        Consultei meus mapas, a bússola, orientação solar e concluí que estava na direção certa. Mas o que seria certo numa situação destas? – Pensei. Meus cálculos me indicavam que teria ainda mais uns 60 a 70 km pela frente. Isto em linha reta!

        Entrei em comunhão antes de me alimentar. Foi um dos melhores momentos que passei ao longo de toda caminhada. A certeza, a convicção de que ia alcançar o meu objetivo, e que tudo ia dar certo, tomou conta da minha mente e se alastrou por todo o meu ser. ELE nunca falha, pensei.

        Comi algumas nozes e passas e tomei um gole de água. Diferente da caminhada no deserto teria muita sombra pela frente, e isto me animava. Além da possibilidade de encontrar água potável. A minha só duraria mais três dias no máximo. Estava na conta, mas aquela cratera bem no meio do meu caminho era um problema.

        Ao descer para o primeiro piso, passei pelo banheiro, e notei num canto da parede algo que me pareceu ser um espelho. Limpei o vidro cheio de fuligem e vi minha imagem refletida nele. Parecia um cadáver! As marcas do sol no meu rosto, manchas diversas, minha boca empolada e ressequida, meus olhos lá no fundo. Coloquei aquele pedaço de vidro dentro da minha mochila e desci.

        Examinei bem a oficina, poderia encontrar alguma ferramenta que pudesse precisar, mas apenas algumas chaves de mecânico e um martelo de ferro. Martelo eu tinha, e ferramentas não precisaria, pelo menos por enquanto.

        Saí do prédio e iniciei minha caminhada. Primeiro dia à luz do sol. Era uma novidade positiva. Sempre adorei o sol!



Escrito por Luiz Lago às 17h27
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20.

        Lembrei-me daquele dia em que as coisas se definiram em relação à Cidade da Esperança. Depois de conseguir a custo comprar o bilhete, voltei naquela noite mesmo para casa, onde cheguei exausto. No outro dia, a feliz notícia através do jornal – meu bilhete ganhou o primeiro prêmio, uma quantia razoável que imaginei aplicar poupança até saber o que fazer como ela.

        A certeza veio em uma visão tão específica que parecia um manual de instruções, naquela mesma noite. Devia comprar uma propriedade que pudesse abrigar o projeto. Havia um problema, o lugar onde se situava esta propriedade, segundo a visão, ficava a mais de mil quilômetros de onde eu morava. Seria uma mudança e tanto, além de ficar muito longe dos meus filhos, ficava no interior, longe do litoral, longe do meu adorado mar.

        Roberto já sabia da minha façanha em relação à loteria, lhe contei no mesmo dia. Nos encontramos na capital, quando fui resgatar o prêmio. Desacostumado a lidar com altas quantias, pedi ao meu amigo que me acompanhasse e aconselhasse quanto ao melhor, ou melhores investimentos. Queria falar pessoalmente sobre a ultima visão. Ele pareceu mais feliz do que eu.

        - Quem diria André! Você um homem rico! Milionário! Afirmou sorridente quando nos encontramos no seu consultório.

        - É verdade, amigo, mas você sabe que isto tudo tem destinação certa. Os planos já estão definidos.

        - Já? Você não me falou nada. Foi outra visão?

        - Foi, respondi. E a coisa ficou complicada.

        - Como assim? Perguntou intrigado.

        Contei tudo detalhadamente para ele. Levei até os dados que anotei tão logo a visão se desvaneceu.

        - Este lugar é muito longe André. O que você pensa fazer? Perguntou.

        - Uma coisa eu sei amigo, desobedecer a visão, jamais! Estava querendo a tua opinião. Sei que devo começar a me movimentar. Aplicar o dinheiro é a primeira coisa, e depois tenho que encontrar a terra específica para comprá-la. O problema que não tenho a mínima idéia de como chegar até lá.

        - Isto não é problema André, falou enérgico, vou com você!



Escrito por Luiz Lago às 23h32
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