Blog Riacho Mágico
   
 
   



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19.

Desta vez eu tinha companhia: Lea!

Corri para ela e a abracei carinhosamente, beijei-lhe a face, enxuguei minhas lágrimas nos seus cabelos. Ela sorria muito, daquele jeito sapeca de quem está aprontando alguma surpresa, mas nada falou. Ficamos de mãos dadas por algum tempo, depois, sorriu mais uma vez, despediu-se de mim, com um leve aceno, desvanecendo-se em seguida. Tentei segurá-la, mas meus braços enlaçaram o ar. Fiquei triste. Sentei-me junto à fonte e pela primeira vez não tomei da sua água.

Acordei com a luz do amanhecer entrando pela varanda do quarto. Levantei e me aproximei da beirada da varanda e a luz intensa do sol daquele novo tempo me cegou por um momento. Ao recobrar a visão, vi um pequeno lagarto olhando para mim atentamente. Como aquela pequena criatura, aparentemente tão frágil, poderia ter sobrevivido ao holocausto? Qual seria o seu alimento? Onde arranjaria água?

Sentei-me e fiquei observando o animalzinho imóvel. Parecia querer falar comigo, me senti meio doido por este pensamento.

         Tentei fazer a introspecção nele. Sabia que era proibido instrospectar animais, só em ocasiões especiais, quando eles nos oferecem perigo, como no caso da serpente. Mas esta não era uma ocasião especial? Sozinho no mundo que já não era o meu, tendo apenas um lagarto como companheiro?

        Ele estava perdido, sem saber para onde ir. Com sede, fome, próximo da morte, talvez. Avaliava-me também, da sua maneira. Estaria esperando que eu morresse para sobreviver?

        Fiz a única coisa que estava ao meu alcance. Com a fivela do meu cinturão, fiz um pequeno corte no meu dedo médio e deixei cair, na boca do lagarto que não se moveu, algumas gotas de meu sangue. Como que sabendo o que estava acontecendo, o bicho bebeu o sangue avidamente. Depois, olhando ao redor, retomou a sua caminhada em busca da sobrevivência.

        Não sei se lhe salvei a vida. Nunca saberia. Havia salvado muitas vidas, e estava colocando a minha vida em risco para salvar mais algumas.

        Como tudo ocorreu tão rápido, a vida anda tão depressa...



Escrito por Luiz Lago às 19h48
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18.

À medida que avançava, os restos de civilização eram cada vez mais aparentes. Pedaços de veículos de todos os tipos, utensílios domésticos, o que restou deles, e algumas construções calcinadas pelo fogo com boas estruturas ainda em condições de serem habitadas. Imaginei que aquela região não foi tão afetada quanto a que estava mais próxima do deserto. Escolhi um prédio com dois andares ainda de pé para o meu descanso. Era isolado das demais construções e parecia sólido. Entrei no que deveria ter sido uma oficina, havia restos de maquinários e uma bancada de cimento, além do que me pareceu ser um elevador de automóveis. O grande calor havia retorcido e deformado a maioria das máquinas e ferramentas. Visualizei uma escada ao fundo de concreto, ainda intacta. Subi por ela para o segundo piso, iluminando bem o chão coberto de fuligem. Admirei-me com a solidez da construção do que parecia ser um apartamento. Eram seis peças ao todo, talvez dois quartos, sala, banheiro, cozinha e uma área fechada. A maioria do piso de cerâmica do apartamento estava bom, apenas coberto de pó e fuligem.

Restos de uma geladeira e um fogão identificaram a cozinha e um vazo sanitário de louça, o banheiro. Estas peças estavam com seus azulejos quase intactos, o que me fez concluir que o construtor daquela obra usou um ótimo material e “abusou do cimento”.

Escolhi um dos quartos para passar o resto da noite. Era maior do que o outro e tinha uma varanda para fora, além da janela. Minha visão do exterior era privilegiada. Improvisei uma vassoura com a minha esteira e limpei grande parte do piso, onde coloquei a esteira e os meus pertences. Fiz a minha refeição de costume e tomei água.

Deitei-me na esteira e adormeci quase que imediatamente. Novamente sonhei com o jardim.



Escrito por Luiz Lago às 22h03
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17.

 

Respirei fundo e afastei o medo que me acometeu. Retomei o comando de mim mesmo e afastei-me rápido, iluminando bem o chão onde pisava. As formigas eram os primeiros seres vivos que eu via desde que iniciei a minha caminhada pelo deserto inóspito. Ah e vi também a cobra que até agora não sei se era verdadeira ou apenas uma visão. Para registrar tirei uma foto digital para exames posteriores.

Teria que tomar muito mais cuidado. Fiquei imaginando o tipo de veneno que aquelas formigas estranhas injetariam nas picadas. E as bactérias então? Havia me vacinado, e estava prevenido contra a maioria dos vírus e bactérias conhecidos. Minhas roupas de couro eram fortes, as extremidades, mãos e pés bem protegidos. Mesmo assim não poderia vacilar, como saberia o que ia encontrar pela frente? A euforia pelo fim do deserto deu lugar à preocupação com o inusitado. Verifiquei o relógio, perdera tempo naquele campo. A medida que me entranhava nas ruínas, notei que o frio diminuiu. Teria que repensar a minha caminhada do outro dia. Talvez não precisasse caminhar à noite, esta idéia me pareceu boa, considerando os perigos que poderia ter pela frente. Decidi caminhar um pouco mais naquela noite e procurar um lugar bem seguro para descansar. Não queria ter surpresas desagradáveis com formigas ou outros insetos.

 



Escrito por Luiz Lago às 21h38
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16.

 

Estes pensamentos eram apenas conjeturas. Não tinha como saber o que acontecera de fato. Passei três anos e meio abrigado na mini fortaleza a 10 metros abaixo do solo, e acompanhei os acontecimentos até que todas as transmissões eletrônicas e radiofônicas acabaram. Juntando os dados destas transmissões consegui, com meus companheiros, tirar conclusões a respeito do fim da humanidade, ou de quase sua totalidade, naqueles meses de 2012. Quando finalmente subimos à superfície e fizemos as primeiras excursões de curto alcance, entendemos a real situação em que nos encontrávamos: sozinhos no planeta, pelo menos é assim que imaginávamos até receber aquele pedido de socorro.

Como esperava, as ruínas foram se tornando escombros e já podia visualizar algumas construções que não foram totalmente destruídas. Minha atenção redobrou. Consultei o mapa, a bússola e segui em frente a passos firmes. O chão estava firme, o que me possibilitaria caminhar o dobro no mesmo tempo. Já havia caminhado por duas horas quando me deparei com os primeiros esqueletos. Estavam num descampado. Uma área grande e plana, poderia até ter sido um campo de futebol. Eram muitos, todos agrupados um ao lado do outro em fileiras sobrepostas, e até onde minha lanterna pode iluminar, cobriam quase todo os espaço do campo. Não havia vestígio de roupas. Alguns repousavam sobre macas, outros estavam semicobertos por terra.

Aproximei-me e vi horrorizado que a terra que cobriam alguns esqueletos, parecia se mover. Iluminei bem um daqueles montes e descobri que aquilo que se movia na verdade eram formigas! Milhares delas, como puderam resistir e que perigo poderiam representar para mim?

Aproximei-me com cuidado e examinei bem as formigas. Eram vermelhas e grandes, parecendo formigas cortadeiras. Mas as cabeças eram maiores e as garras também. Mediam em torno de um centímetro e eram fortes e ativas. Sentiram a minha aproximação e se voltaram para mim. Um frio percorreu minha espinha e por um momento minhas pernas não acompanharam o comando do meu cérebro.



Escrito por Luiz Lago às 18h04
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15.

 

Voltei para o interior da loja para pegar meus pertences e voltar à minha jornada. Estava frio, e a caminhada me aqueceria. Sentia-me melhor naquela madrugada. Sem dores musculares creio que a comunhão, praticada no mínimo três vezes ao dia, com certeza era a causa da melhora do meu estado geral. Coloquei a mochila e desta vez dispensei o acessório que criei para andar na areia, tipo de raquete de tênis, feito de junco, que me dava mais estabilidade e movimento para caminhar no deserto. O terreno estava mais firme agora, e a tendência era melhorar cada vez que avançasse em direção ao meu objetivo: chegar até o mar!

Outro fator que me animava era a possibilidade de encontrar água. A dúvida era se esta água seria potável ou não. Levava comigo alguns produtos para teste, inclusive um medidor de radiação que estava ligado direto desde que penetrei no deserto. Mais um invento do meu filho mais velho o Junior, um gênio, autodidata (Lea deixou alguma coisa nele quando o ressuscitou, com certeza) criou a maioria das nossas máquinas movidas a energia limpa, o medidor era alimentado através da energia solar.

Com cuidado, fui avançando entre as ruínas que sobraram de uma das maiores regiões metropolitanas do país. Aqui viviam mais de vinte e dois milhões de pessoas, 75% eliminados em questão de menos de dois minutos! Sem deixar nenhum vestígio. Não sobrou nada daquelas pessoas, nem mesmo um fio de cabelo. O restante não deve ter durado mais do que um ou dois anos. Estava preparado para encontrar cadáveres dos que morreram devido à radiação, ou possíveis epidemias virais que foram noticiadas. O homem destruiu-se com tudo o que tinha de letal. A insanidade foi tanta que os arsenais de todos os tipos, de todas as nações do mundo ficaram vazios. O Conselho participara diretamente desta ação demoníaca.



Escrito por Luiz Lago às 19h09
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14.

 

Uma luminosidade penetrou o interior da loja, despertando-me da comunhão, uma hora exata havia passado. Olhei para fora e percebi que era a Lua que reinava absoluta na noite fria da ex-cidade deserta.

        Saí para o exterior e maravilhei-me, mais uma vez, com a beleza da criação de DEUS. Impossível conter a emoção diante de um espetáculo daquelas proporções.

        Os escombros e as dunas em volta tornaram-se mar de prata liquida, enquanto as suas sombras formavam negros abismos, crateras insondáveis do mais absoluto nada. É notável como a luz da Lua, quando Cheia, consegue ofuscar o brilho de estrelas, sóis, com brilho mais intenso do que o nosso astro doméstico. Lembrei-me da relatividade do Universo e no equilíbrio divino que esta relatividade proporciona. Como é grandiosa a criação divina.

        Notei também que haveria cada vez mais escombros à minha frente. Isto era bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque estava no caminho certo, segundo os mapas que eu dispunha, além de, segundo estes mesmos mapas, o deserto estava terminando. Ruim porque não tinha idéia do que poderia encontrar pela frente. Desconhecia a possibilidade de sobreviventes nas áreas atingidas, mas nunca se sabe. O homem sempre se saiu muito bem em situações extremas. Teria que ficar mais alerta em meus sentidos desenvolvidos de audição, olfato e visão. O holocausto acontecera a quatro anos. Em nosso abrigo, ouvimos algumas comunicações até pouco mais de um ano depois. Daí para frente só estática em nosso rádio. Até que no mês passado recebemos o pedido de socorro de outro núcleo de sobreviventes – e por incrível que possa parecer, disseram que estavam falando da Cidade da Esperança!



Escrito por Luiz Lago às 18h57
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13.

Estava na hora da parada obrigatória. Creio que me aproximei daquilo que restou de uma cidade. Estava mais perto agora do meu objetivo. Ainda havia muita areia, mas os restos de edificações calcinadas pelo fogo me proporcionariam um bom abrigo.

As lembranças foram positivas nesta etapa da caminhada. Devo ter superado a marca que estabeleci para andar por hora, em torno de 2 a 3 km, dependendo do terreno. E o mais incrível, me sentia muito bem!

Logo encontrei um abrigo, uma das poucas construções que resistiram à hecatombe. Era um tipo de uma loja com uma laje na parte superior, com duas grandes aberturas, onde imaginei pudesse originalmente existir uma porta e uma janela. Estava vazia, como todas as construções que ficaram de pé e que logo após o desastre, foram saqueadas pelas hordas de sobreviventes contaminados. Eles realmente “limparam tudo” o que viram pela frente. Tirei o pó do que me pareceu ser um balcão de concreto, arrumei minhas coisas e preparei-me para descansar por uma hora. Uma barra de cereal e um gole de água, minha refeição naquela noite fria eram 22:12. Com certeza estava no caminho certo, pensei enquanto me recostava para mais um momento de comunhão. Era assim que encontrava força para seguir adiante.



Escrito por Luiz Lago às 19h03
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