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BRASIL, Sudeste, MARICA, Homem, de 56 a 65 anos, Portuguese, Livros, Música MSN -
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O efeito da cola de sapateiro no organismo de quem sente fome e frio é maravilhoso. Elimina a fome e o frio, quase que imediatamente. Dá uma sensação de euforia e felicidade aparente. Depois, consome você por dentro. Logo fiquei viciado. Fazia qualquer coisa, para conseguir a minha porção diária para cheirar. Pedia, praticava pequenos furtos, brigava e me prostituía por alguns trocados, só para cheirar. Num desses furtos, fui pêgo pela polícia: tentei argumentar e me oferecer para os policiais, mas esses eram sérios e me levaram para uma instituição penal para crianças. Lá passei os piores anos da minha vida. Só existe o mal, num lugar como esse. Descobri, então, que eu não sabia o que era maldade, e que, na verdade, eu era um “anjo” perto dos meus colegas de prisão. As autoridades não usam o termo prisão para esses estabelecimentos. Mas é pior que isso, pois juntam adolescentes infratores e crianças abandonadas, uma verdadeira escola de bandidos, onde se aprende a praticar todos os tipos de crimes. Os menores ficam confinados, sem atividades para distraí-los dos vícios e da solidão. Fui internado diversas vezes, por intoxicação com cola e outros tóxicos que nos eram fornecidos pelos próprios guardas e servidores que, em troca, praticavam conosco todo tipo de abuso. Comecei a perceber que aquele vício estava-me levando para uma morte terrível. Era como se eu estivesse tentando suicidar-me. A idéia do pior dos infernos, suavemente incutida em minha mente por minha mãe, sobressaltava-me, nos pesadelos noturnos. Aproveitei o tratamento e com muita vontade, me libertei do vício. Então, houve uma revolta na instituição e aproveitei para fugir com mais alguns companheiros de infortúnio. 6
Concluí que a cidade não era uma coisa boa para mim. Tinha 12 anos, mas meu aspecto era de um garoto de 10 anos. Resolvi sair da cidade e ir para o campo. Eu queria fugir daquele ambiente que me fora tão hostil. Queria esquecer todo o mal que me fizeram; sepultar aquele “eu” que me enojou. Assim, na primeira oportunidade, separei-me dos meus companheiros de fuga, as últimas pessoas que desejava ter por perto, nesta minha nova vida. Furtei umas roupas de um varal de uma casa próxima ao instituto, para me livrar das roupas de interno. Eram roupas simples, mas estavam lavadas e cheirosas. Desejei ter tomado banho antes de vesti-las; lembrei-me que esta era recomendação de minha mãe e chorei. Caminhei durante a noite toda e, ao amanhecer, estava bem longe da cidade.Com medo de ser apanhado, caminhei pela lateral da estrada federal, (não me recordo qual era) escondendo-me sempre que passava um carro. Cansado de tanto caminhar, com fome, parei num posto de gasolina na beira da estrada, mal havia raiado o dia. Menti para o moço do posto: disse que tinha perdido o ônibus na última parada e que minha mala tinha seguido com ele. Disse-lhe que estava com fome e cansado.
Escrito por Luiz Lago às 21h26
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A vida no internato, foi muito pior do que na casa da minha tia. A disciplina rígida e os outros meninos de diversas idades, todos, ou quase todos, com problemas de relacionamento e com alta taxa de agressividade, mantinham o ambiente, essencialmente, negativo. Sentia muita falta da minha prima e também da pouca privacidade que eu tinha, na casa de minha tia. O internato foi uma escola de maus hábitos e maus pensamentos para mim. A comida era horrível e pouca. Eram muitas horas de aula e pouco tempo, ao ar livre. Alguns exercícios pela manhã, apenas. Observava os professores e diretoria na hora do almoço e não entendia, porque a comida deles era diferente da nossa. O diretor, capitão Duarte, calvo e gordo, estava sempre de colete e gravata borboleta, tinha um relógio de bolso com uma corrente que atravessava o colete de um lado a outro. Apesar de sempre estar muito sério e carrancudo, era muito mulherengo e vivia bolinando as empregadas e professoras do internato. Foi um tempo difícil, e passei muitas noites chorando de saudade dos meus pais. Apanhei muito, meus dentes ficaram ruins. Minha tia me visitava uma vez por mês e dizia-me que não tinha dinheiro para o dentista. Observei que sua vida mudara para melhor: tinha comprado um carro novo e vestia roupas caras e modernas, além de usar um perfume forte que permanecia na sala de visitas horas após ir embora. Não agüentei aquela vida por muito tempo. Uma noite aproveitei o descuido do guarda noturno e fugi do internato.
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O mundo passou a ser a minha casa. Descobri o quanto a vida é dura, quando andamos pelas ruas da cidade, dependendo da caridade das pessoas . Existem muito poucas pessoas caridosas. A maioria, que me dava alguns tostões ou pão, passava-me a impressão de estarem dando, para se livrarem do incômodo que aquela criança, suja e esfarrapada, representava na sua presença. O que queriam era ver-me pelas costas. Outros, na maioria homens velhos, fingiam ser caridosos, para abusar das crianças de rua. É inimaginável, para uma pessoa com vida considerada “normal”, a quantidade de abusos que uma criança de rua sofre. E não apenas as meninas, mas também os meninos são abusados sexualmente. Não só pelos outros garotos como pelos adultos. E se incluem, neste rol, alguns maus policiais, que se servem das crianças de rua, para satisfazerem todo tipo de taras sexuais. Uma vez, eu estava morto de fome, e um senhor, a quem pedi que me desse dinheiro ou algo para comer, convidou-me para ir com ele até sua casa. Eu sabia para que queria que eu fosse com ele. Mesmo assim a minha fome era tanta que não me importei. Fui com ele e sofri o abuso, por um prato de comida. Se Deus existisse, pensei, não iria permitir que coisas assim ocorressem com crianças.
Escrito por Luiz Lago às 17h33
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Começando...
É um começo, portanto peço desculpas se a comunicação não ocorrer da forma apropriada, ou será que não existe forma apropriada? O caso é que gosto de escrever. Já publiquei(eu mesmo) um livro Riacho Mágico(já esgotado) e vou começar por aí. Uns dois capítulos por dia, às vezes faço um comentário, ou mesmo jogo uma poesia aqui, ou lá. Em nosso País os escritores tem que ter uma qualidade: POUCA FOME! Se der tudo bem, tenho mais três livros( em fase final )e alguns roteiros para cinema. Creio que 5 em cada 10 que lerem este Blog vão dizer: eu tbém, eu tbém... Assim vamos começar:
RIACHO MÁGICO Um Conto de Amor Incondicional 1 Aos 9 anos, achei que Deus não existia ou, se existia, era muito mau. Meus pais e minha única irmã morreram num acidente de trânsito. Morreram todos instantaneamente. Fiquei só no mundo, em apenas um instante: sem o carinho da minha mãe, sem a amizade do meu pai e sem a companhia da minha irmãzinha. Apenas só. Eu não morri com eles, porque preferi ficar em casa, assistindo televisão. E, por isso, passei muitos anos sem assistir televisão. Eu me culpei por muito tempo, por não ter morrido junto com a minha família. As pessoas dizem que “os bons são os que morrem cedo” e culpava-me por ser mau. Fui um menino normal e comum, como todos os outros. Fazia as bagunças que todos os meninos faziam. Era desobediente, mentia e, às vezes, fazia pequenas maldades com minha irmã. Eu era como todas as crianças. De tanto pensar que eu era mau, e que, por isso não tinha morrido no acidente, creio que aumentei o meu potencial negativo. Comecei a arquitetar maldades verdadeiras. Algumas pratiquei, outras ficaram apenas no meu pensamento. Quando nos imaginamos maus, a maldade cresce em nós. É possível que eu não tivesse capacidade de pensar diferente, após tudo o que me aconteceu. Eu queria morrer também, para provar que não era tão mau assim, mas nunca cheguei a pensar em suicídio. Eu sabia que as pessoas que se suicidavam iam para o pior lugar do inferno. A única coisa que eu queria era voltar para a minha família.
2 Após minha orfandade, fui morar com a irmã de meu pai. Acho que ela quis que eu fosse morar com ela para ficar com a pensão que meu pai me deixara. O seu marido estava sempre desempregado e eles viviam mal, financeiramente. Os meus tios tinham três filhos: dois rapazes mais velhos do que eu e uma menina com a idade da minha irmã. Foi a única compensação que recebi, quando fui morar com eles. Eu e minha prima brincávamos muito, lembrava-me de minha irmã; era como que matasse saudade dela ao brincar com a minha prima. Ela gostava muito de mim e eu dela, só que não deixava de lhe fazer algumas maldades, como fazia com a minha irmãzinha. Acho que todos os irmãos ou primos implicam e fazem maldades uns com os outros. Os meus primos me maltratavam com eu maltratava a irmã deles. Eles não gostavam de mim, talvez porque sempre tive tudo que eles não tiveram. Minha tia me tratava com rispidez, e, às vezes, me protegia das perversidades dos seus filhos contra mim, o que os levava a implicarem comigo, cada vez mais, por ciúme, naturalmente. É que a insegurança, a meu ver, gera ciúme, concluí. Graças a essa conclusão, compreendi que é errado sentir ciúme, assim procurei nunca dar espaço a esse sentimento em meu coração. Minha tia não suportou as brigas que passaram a ocorrer na sua casa por minha causa. Meu tio me tratava mal e eu revidava com ma-criação. Fui interno para um colégio, tão logo ela conseguiu a minha tutela. A pensão estava garantida, então.
Escrito por Luiz Lago às 18h25
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